Idéias de Luc Ferry, Ateísmo e Natal [*]

 

É muito imbecil, ou louco,

quem não vê, na sua estrada,

que com Deus é muito o pouco,

e sem Deus, o muito é nada…

 Octacílio Cruz Peixoto, trovador.

 

Luc Ferry é um filósofo e cientista social parisiense. Nasceu em 1951, contando, hoje, com 56 anos. Tem se tornado um escritor voltado para o humanismo secular. Em 2006, ganhou o prêmio Aujourd’Hui com seu livro Aprender a Viver, onde apresenta a história da filosofia desde a antiga Grécia à atualidade.

É conhecido como um dos mais radicais defensores do movimento de laicização no Ocidente, particularmente contra o avanço dos fundamentalistas. Quando foi ministro da Educação, na França, entre 2002 e 2004, muito repercutiu o fato àquela época, de proibir o uso de véus das mulheres muçulmanas em escolas públicas.

Em seu livro Nouvel Ordre Écologique, além de apresentar crítica aos ecologistas radicais, expressa preocupação no mundo globalizado com o futuro da democracia e a deterioração do poder dos políticos.

Com relação ao medo que os jovens contemporâneos enfrentam em relação àqueles dos anos 60, diz: “o que é novo não é a proliferação do medo, mas o fato que o medo seja desculpabilizado. Em minha infância o medo era um sentimento negativo, um pouco vergonhoso e que, para crescer, era preciso superá-lo. Hoje se tornou sentimento positivo, como se fosse o primeiro passo para a sabedoria”.

Ainda no seu livro Aprender a Viver, Luc Ferry defende que a consciência da responsabilidade do indivíduo sobre a coletividade deve gerar um novo humanismo. Entretanto, embora não se considere nietzschiano, ensina ao homem a ocupar o lugar de Deus, ou a persistir na ideia de divinizar o humano. Assim, defende que a idéia da transcendência desceu do céu para a Terra, na humanidade, especificamente pela sacralização do ser humano.

Contrariamente, por incrível que possa parecer, este livro, segundo críticos, poderia ser resumido com um princípio cristão: “não faça aos outros, o que não gostaria que fizessem com você”. Entretanto, Ferry acredita que, quanto mais ateu for o filósofo, mais à altura do título de pensador ele possui.

No seu livro O Homem Deus, Luc Ferry expressa novamente sua visão laicizante acerca do mundo. Pressupondo a decadência do cristianismo, renova sua crença na divinização do homem. Para ele o indivíduo moderno deve enfrentar sozinho as experiências cruciais da existência, tais como o luto, o mal e o amor.

Luc Ferry

O ateísmo tem-se propagado não somente como uma simples opção, ou mesmo como convicção, mas sim, com a intenção de destruir a fé em Deus. Seus protagonistas jactam-se com ar de superioridade com relação aos demais mortais, pressupondo que atingiram um plano civilizacional superior, pois prescindem de Deus. Entretanto, eles não levam em consideração que crer em Deus como a Causa Primeira de um mega e inúmeros nanouniversos, perfeitamente harmônicos e bem ordenados, não é apanágio apenas dos incultos, dos iletrados, dos simplórios e dos matutos, mas também de cientistas, pensadores, pós-graduados lato sensu, artistas e de intelectuais dos mais variegados matizes.

Paradoxalmente, a segurança dos que acreditam em Deus é a mesma daqueles que O negam. Contudo, as considerações dos ateus desarticulam-se e volatilizam-se mais facilmente diante da argumentação filosófica, científica, lógica e racional.

Algo jocoso, mas ao mesmo tempo real, aconteceu em Paris, na mesma cidade de Luc Ferry, com um ilustre concidadão seu, há cerca de 200 anos. Jean le Rond d’Alembert (1717-1783), filósofo, matemático e físico que participou da edição da Encyclopédie, primeira enciclopédia publicada na Europa, frequentemente usava sua inteligência para menosprezar a religião. Certa feita estava num palácio e começou a vangloriar-se de ser ateu. Dizia: neste palácio somente eu não creio, nem adoro a Deus. Entretanto, uma mulher de fé que ali se encontrara lhe respondeu: estais muito enganado, senhor d’Alembert. O senhor não é o único. Existem outros neste palácio que não acreditam em Deus. Admirado, ele perguntou: e posso saber quem são meus companheiros, minha senhora? Claro! – retrucou ela –, complementando: são os cães, os cavalos e os burros que estão no pátio…

Com todo o respeito a pensamentos contrários, diríamos que apenas um irracional pode negar a Deus. Explicitando: O irracional não tem capacidade de articular a razão – consequentemente, Deus é a realidade mais evidentemente inegável.

Os crédulos não o são por medo do desconhecido, pela ignorância, pela falta de explicação abstrata ou pelas superstições, mas sim, concebem a noção de um Criador também pela intuição e pela dedução racional. Diríamos que no homem existe o instinto da religiosidade como outro qualquer. A sua sede pelo transcendente lhe é inata. O genial filósofo Aurélio Agostinho de Hipona (354-430), que passou boa parte de sua vida menosprezando o transcendente, sintetizou este anseio de forma simples, densa e lapidar: “Tu nos fizeste para ti, Senhor, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Confissões I,1).

Ainda é do genial Agostinho esta reflexão contida em seu Sermão 126,3: “Eleva o olhar racional, usa os olhos como homem, contempla o céu e a terra, os ornamentos do céu, a fecundidade da terra, o voar das aves, o nadar dos peixes, a força das sementes, a sucessão das estações. Considera bem os seres criados e busca o seu Criador. Presta atenção no que vês e procura quem não vês. Crê naquele que não vês, por causa das realidades que vês. E não julgues que é pelo meu sermão que és assim exortado. Ouve o apóstolo que diz: – ‘As  imperfeições invisíveis de Deus tornaram-se visíveis, desde a criação do mundo, pelos seres por ele criados’ (Rm, 1,20)”.

O irreverente François-Marie Arouet, filósofo iluminista francês, mais conhecido pelo pseudônimo de Voltaire (1694-1778), no tocante ao criador, dissera: “todo relógio tem um relojoeiro!”. Acreditava explicitamente na existência de Deus. Para Voltaire, “Deus é a suprema inteligência do mundo, obreiro infinitamente capaz e infinitamente imparcial”.

Para o famoso escritor e poeta francês Victor Hugo (1802-1885), “Deus é o invisível evidente”. Jacques Anatole François Thibault, mais conhecido como Anatole France (1844-1924), também escritor, recebido na Academia Francesa em 24 de dezembro de 1896, e laureado com o prêmio Nobel de Literatura, em 1921, consignou primorosamente que “o acaso é, talvez, o pseudônimo de Deus, quando Ele não quer assinar o seu nome”.

Assim poder-se-ia elencar uma série de outros homens notáveis – religiosos, filósofos, teólogos, escritores, artistas, músicos, cientistas, intelectuais… –, que acreditavam em Deus ou que a Ele chegaram pelas evidências de seus misteres: Francesco Bernardone ou Francisco de Assis (1181-1226), eleito no final do século XX, pela revista Times, como o personagem que mais marcou o milênio passado; Tomás de Aquino (1225-1274), Nicolau Copérnico (1473-1543), Galileu Galilei (1564-1642), Johannes Kepler (1571-1630), René Descartes (1596-1650), Blaise Pascal (1623-1662), Isaac Newton (1643-1727), Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716), Ludwig van Beethoven (1770-1827), André Marie Ampère (1775-1836), Louis Pasteur (1822-1895), pai da microbiologia; Antoine Henri Becquerel (1852-1908), prêmio Nobel de Física, em 1903, pela descoberta da radioatividade; Max Planck (1858-1947), prêmio Nobel de Física, em 1918, pela descoberta do “quantum” de energia; Andrews Millikan (1868-1953), prêmio Nobel de Física, em 1923, pela descoberta da carga elétrica elementar; Maratma Gandhi (1869-1948), Alex Carrel (1873-1944), prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, em 1912, pelas suas pesquisas em sutura vascular; Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz, em 1952; Albert Einstein (1879-1955), prêmio Nobel de Física, em 1921, pela descoberta do efeito fotoelétrico; Erwin Schrödinger (1887-1961), prêmio Nobel de Física, em 1933, pelo descobrimento de novas fórmulas da energia atômica; Agnes Gonxha Bojaxhiu, Teresa de Calcutá (1910-1997), prêmio Nobel da Paz, em 1979; Jérôme Lejeune (1926-1994), pai da genética moderna;  Martin Luther King (1929-1968), prêmio Nobel da Paz, em 1964; Desmond Mpilo Tutu (1931-), prêmio Nobel da Paz, em 1984, dentre outros milhares ou milhões, que mais prestaram e prestam serviço ao pensamento, à ciência, às artes, enfim, ao homem e à civilização do que o mal que fizeram ou que fazem à humanidade expoentes do pragmatismo ateu como Josef Stalin (1878-1953), Adolf Hitler (1889-1945), Mao Tsé-Tung (1893-1976), Saloth Sar, mais conhecido por Pol Pot (1925-1998), Fidel Alejandro Castro Ruz (1926-), além de outros carrascos que assassinaram mais de cem milhões de pessoas.

Os homens não são iguais entre si e, no que tange ao ateísmo implícito e explícito no pensamento de Luc Ferry, assim como de outros militantes, ele é rechaçado por 97,5% da população mundial que se declaram crentes. Felizmente não é necessário ter muitos neurônios para se chegar a essa constatação e nem ostentar arrogância de superioridade intelectual! Contrariamente ao que assevera Luc Ferry diríamos que, quanto mais humilde for o filósofo, mais à altura do título de pensador ele possui. Aliás, Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), filósofo ateniense e um dos mais importantes pensadores do Ocidente, já entendera que quanto mais sei, mais sei que nada sei”.

Ao ensejo dessas ponderações, vale a pena aduzir o nome de Francis S. Collins, diretor do Projeto Genoma Humano, que assume ser cristão, exibindo uma trajetória que vai do ateísmo à crença. Collins lançou, recentemente nos Estados Unidos da América, uma interessante obra, cuja tradução para o português tem como título A Linguagem de Deus – Um Cientista Apresenta Evidências de que Ele Existe, mostrando, assim, como inúmeros outros, que não há contradição entre ciência e fé.

É de se esperar, pois, que neste mês de dezembro, Luc Ferry e seus simpatizantes ateus aceitem de 1/5 da humanidade que é cristã, um feliz Natal, entendido como o Deus que se tornou homem para resgatá-lo de seu próprio mal e dar um sentido redentor às suas angústias, achaques, imperfeições, pecados e sofrimentos.


[*] O Bandeirante. Ano XVI – no 181 (dezembro): 1-2, 2007 e Boletim da Urologia Ano XXIII – no 1 (janeiro-fevereiro): 54-57, 2008.

Publicado em: às 17 17UTC fevereiro 17UTC 2010 em 18:11  Deixe um comentário  

Abrames: Vinte Anos de História![1]

 

 

A Academia Brasileira de Médicos Escritores (Abrames) é o único silogeu literário exclusivo de médicos que se conhece no mundo! Foi idealizada por Mateus Vasconcelos, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames), regional do Estado do Rio de Janeiro (1969-1971 e 1974-1975) e da sede nacional (1980-1982).

A fim de que tal desiderato fosse alcançado, um pugilo de médicos idealistas, constituído por Marco Aurélio Caldas Barbosa, eleito presidente dessa comissão, Mateus Vasconcelos, Miguel Calille Jr., Tito de Abreu Fialho, Maria José Werneck, Perilo Galvão Peixoto, Syllos de Sant`Anna Reis e Luiz Gondim de Araújo Lins passou a se reunir na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Formularam seus estatutos, as insígnias acadêmicas e escolheram para patrono da entidade Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), médico, jornalista, cronista, romancista, crítico literário e também patrono da cadeira no 28 da Academia Brasileira de Letras.

A Abrames foi fundada, propositadamente, no dia 17 de novembro de 1987 – dia e mês de nascimento de Manuel Antônio de Almeida, seu patrono –, no anfiteatro Miguel Couto do Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia, na cidade do Rio de Janeiro. Devido ao seu falecimento, Mateus Vasconcelos não pôde ver seu ideal realizado, assim como Miguel Calille Jr., tendo-lhes sido outorgada pelos seus pares, a honra de serem patronos, respectivamente, das cadeiras no 1 e no 4.

Marco Aurélio Caldas Barbosa não somente foi o líder da comissão organizadora da Abrames, seu grande protagonista, mas também é considerado seu fundador. Foi ele quem planejou a medalha, desenhou os diplomas, supervisionou os estatutos, delineou a bandeira e previu seu escudo. Ademais, organizou a festa solene de instalação do sodalício com suas cinquenta cadeiras na memorável noite de 26 de maio de 1989, em sessão de gala, no Palácio da Cultura Gustavo Capanema, na cidade do Rio de Janeiro.

A Abrames compõe-se de cinquenta cadeiras, em que predomina o princípio da vitaliciedade modificada, admitindo, desde o seu primeiro Estatuto, em 1987, a condição de membro emérito, quando, sob certas circunstâncias, ocorre a vacância da cadeira sem que o titular perca a sua condição de acadêmico.

Os patronímicos das cinquenta cadeiras da Abrames foram ilustres médicos escritores, sendo que 23 deles pertenceram à Academia Nacional de Medicina; 14 tiveram seus nomes ligados à Academia Brasileira de Letras; e outros, vínculos com igualmente notáveis entidades, tais como Academia Mineira de Letras, Academia Fluminense de Medicina, Academia Paulista de Letras, Academia Brasiliense de Letras, Academia Luso-Brasileira de Letras, Academia Petropolitana de Letras, dentre outras. Há uma só patronesse, Francisca Praguer Fróes, patronímia da cadeira no 24.

A Abrames é filha da Sobrames e a maior parte dos membros que tiveram o privilégio de a ela pertencer foram ou são, igualmente, membros de diversas regionais estaduais da Sobrames. Por ocasião da instalação da Abrames, havia em seu quadro membros representantes dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul,


[1] O Bandeirante. Ano XVI – no 180 (novembro): 1 e 8, 2007.

Bahia, Minas Gerais, Alagoas e Paraná. Posteriormente, além desses, ingressaram membros dos Estados do Amazonas, Rondônia, Ceará, Pernambuco e Goiás.

A Sobrames paulista sempre gozou de prestígio na Abrames. Seus doze representantes, ao longo desses vinte anos são, em ordem cronológica de posse: Helio Begliomini e Flerts Nebó (titulares-fundadores, 1989); Regis Cavini Ferreira (1993); Carlos Luiz Campana e Thereza Freire Vieira (1995); Walter Whitton Harris (1997); Aldo Miletto e Josyanne Rita de Arruda Franco (1999); Evanil Pires de Campos (2000); Luiz Giovani (2001); Alcione Alcântara Gonçalves (2003) e Nelson Jacintho (2006).

Na instalação da Abrames, cinco de seus membros eram também titulares da vetusta Academia Nacional de Medicina. Nos anos seguintes, mais sete membros desse honorável e secular sodalício também adentraram na Abrames.

Dos seus cinquenta fundadores apenas quatro eram mulheres: Maria José Werneck (RJ), Zilda Cormack (RJ), Coracy Teixeira Bessa (BA) e Dulce Morgado Castellar Pinto (RJ). Posteriormente ingressaram mais oito: Maria da Paz Manhães (RJ), Inaura Vaz Carneiro Leão (RJ), Marli Piva Monteiro (BA), Thereza Freire Vieira (SP), Sara Riwka Erlich (PE), Marialzira Perestrello (RJ), Josyanne Rita de Arruda Franco (SP) e Leila Maria Campos Jordão (RJ).

Registra-se, como curiosidade, que os mais jovens membros a adentrarem na imortalidade da Abrames foram: Helio Begliomini, com 34 anos, e Josyanne Rita de Arruda Franco, com 37 anos, ambos membros da Sobrames paulista.

Transcorridos vinte anos de existência da Abrames, encontram-se ainda entre nós apenas doze de seus cinquenta membros fundadores. Nesses quatro lustros, houve nove mandatos de dois anos cada, sendo seus presidentes, em ordem cronológica: Marco Aurélio Caldas Barbosa (1989-1991), Tito de Abreu Fialho (1992-1993), Júlio Arantes Sanderson de Queiroz (1994-1995 e 1996-1997), Jorge Picanço Siqueira (1998-1999), Zilda Cormack (2000-2001 e 2002-2003) e Abílio Kac (2004-2005 e 2006-2007).  Salienta-se que Luiz Gondim de Araújo Lins esteve presente em todas as diretorias, ocupando em cinco gestões a vice-presidência.

Estas modestas palavras inspiradas por ocasião do vigésimo aniversário desse querido silogeu pretendem não somente prestar uma singela homenagem a esta augusta casa de médicos literatos, à memória de seus membros, mas também, contribuir simploriamente com sua divulgação e sua história.

Publicado em: às 21 21UTC dezembro 21UTC 2009 em 21:46  Deixe um comentário  

Tributo a Jundiaí e aos Jundiaienses[*]

 Agradecer é reconhecer-se humildemente endividado.

Conheci três homens que tiveram singularmente como denominador comum o amor pela Medicina e um carinho todo especial pela cidade de Jundiaí.

O primeiro deles era um jovem que transpirava ardentemente seus ideais em ser médico. Apaixonou-se por essa causa desde a sua infância, aos seus seis anos de idade, e dela jamais arredou pé. Assim, manteve e alimentou esse sonho durante sua adolescência e juventude e, de modo particular, diuturnamente no terceiro ano do antigo científico, pois o realizava à noite enquanto frequentava, pela manhã, o cursinho preparatório para Medicina. Contava ele com dezessete anos. Disse-me que fora o pior ano de sua vida, haja vista o cansaço físico e psicológico causados pelo estresse e pela acirrada competição.

Uma alegria inaudita experimentou após saber que fora aprovado no difícil vestibular, em virtude da Faculdade de Medicina de Jundiaí oferecer apenas sessenta vagas anuais, praxe que continua até hoje em dia.

Contou-me que a cidade, nessa época, apesar de já possuir destaque no Estado de São Paulo por suas indústrias e agronegócios, tinha o sotaque caipira do interior e ares provincianos, não obstante sua localização a menos de 50 quilômetros da capital.

Com dezoito anos incompletos e inexperiente, pois jamais morara fora de sua casa, aquele jovem sonhador, com o apoio irrestrito de seus pais, transferiu-se, em 1973, para Jundiaí. Disse-me com emocionadas saudades que seu trote de calouro, mais do que os louros da vitória, fora um verdadeiro batismo na milenar ciência de Hipócrates. Participou das brincadeiras e pediu esmolas com os cabelos retalhados e com o corpo encharcado de tintas, farinhas e ovos quebrados, sempre com grande alegria e envolvimento. Era o início de uma longa caminhada que teria pela frente, mas sabia que embora espinhosa, árdua e sinuosa, Deus dar-lhe-ía as condições necessárias para chegar a bom termo.  Enquanto não conhecia melhor seus companheiros de turma para residir numa moradia comum, passou por uma simplória pensão, onde, à noite, até ratos andavam por debaixo de sua cama. Sem lugar definitivo, chegou a ser albergado provisoriamente numa república de alunos mais velhos, conhecidos por utilizarem drogas ilícitas. Por vezes morou na “zona”, mas, com a graça divina, jamais fora da “zona”.

Dissera-me também que durante aproximadamente quatro anos vinha para cá sistematicamente no trem das 7, todas as 2as feiras, e daqui partia no final da tarde das 6as feiras ou sábados, igualmente pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Aliás, o trem fora outra paixão em sua vida. Confessou-me que, quando criança, antes de querer ser médico, queria ser maquinista de trem, pois no bairro onde morava, sua avó paterna levava-o frequentemente para passear num antigo trenzinho puxado por uma poluidora maria-fumaça.

Disse-me com incontida alegria que viveu e saboreou intensamente a vida acadêmica: vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, durante seis anos, não somente nos estudos, cursos e estágios extracurriculares, mas também nos esportes e festas. Teve o privilégio de ser monitor de três diferentes disciplinas: fisiologia, clínica médica e urologia. No terceiro ano envolveu-se também com o departamento científico do diretório acadêmico professor Alphonso Bovero, tendo sido co-fundador da revista científica dessa faculdade, denominada “Perspectivas Médicas”, ainda hoje em circulação. Nesse empreendimento exerceu, respectivamente a função de vice-diretor (editor-associado, 1976) e de diretor (editor, 1977).

Conheceu afamados lentes que, além de lhe darem conhecimentos técnico-científicos, sedimentaram-lhe um humanismo coerente, baseado no irrestrito respeito ao próximo, particularmente ao enfermo, e à vida em toda a sua plenitude: do início com a concepção ao seu ocaso com a morte natural. Entre seus inesquecíveis e inúmeros professores citou-me: Olavo Marcondes Calazans, Antônio Sesso, Douglas Zago, Metry Bacila, Nain Sawaia, Miguel Nassif, Pedro Lara, José Carlos da Rosa, Dino Baptista Germano Pattoli, Sérgio Olavo Pinto da Costa, Carlos da Silva Lacaz, Adhemar Purchio, Fernando Varela de Carvalho, Kurt Kloetzel, Antonio Monteiro Cardoso de Almeida, Sergio Toledo de Moura Campos, Aníbal Cipriano da Silveira Santos, João Tranchesi, Antonio Mendes Pereira, Marco Antonio Paes de Freitas, Ricardo Veronesi, Wilson Cossermelli, João Targinio de Araújo, José Eduardo da Costa Martins, Paulo David Branco, Eugênio Américo Bueno Ferreira, Murilo R. Viotti, Roberto Anania de Paula, Lauro Takumi Kawabe, Oswaldo Tempestini, Dagoberto Telles Coimbra, Roberto de Vilhena Moraes, Jalma Jurado, Euclides Marques, Álvaro da Cunha Bastos, Clemente Isnard Ribeiro de Almeida, Aloysio de Mattos Pimenta, Lenir Mathias, Newton Kara José, Sami Arap e Cláudio José Pagotto, dentre tantos outros que a memória inculposamente peca por não conseguir recordar, mas que igualmente foram-lhe grande esteio de uma formação equilibrada em Medicina, como ciência, arte e humanismo.

O envolvimento em sua vocação propiciou-lhe galgar importantes estágios extracurriculares dentro e fora dos domínios de sua faculdade, como em São Paulo, durante um ano, na Maternidade Leonor Mendes de Almeida ou, simplesmente, Casa Maternal.

Disse-me emocionado que, infelizmente, os seis anos foram rapidamente dragados pela voracidade do tempo. Formou-se em 1978, na 5a turma dessa instituição de ensino. Contudo, os ensinamentos obtidos na Faculdade de Medicina de Jundiaí deram-lhe conhecimentos para que realizasse Residência Médica em urologia, no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo, importante hospital de ensino, referência nacional nessa especialidade, e, posteriormente, pós-graduação em nível de mestrado na então Escola Paulista de Medicina, há muito denominada Universidade Federal de São Paulo.

Aquele jovem aqui amadureceu e aqui realizou seu grande sonho de ser médico. Asseverou-me que foi e será sempre muito grato a Jundiaí.

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Conheci, em 1991, um outro homem. Era médico formado há 13 anos e trabalhava na cidade de São Paulo. Sua esposa era engenheira e tinha três filhos: dois meninos, respectivamente de 11 e 9 anos e, uma menina de 3 anos. Conhecia Jundiaí, mas há tempos não se deslocava para cá. Tornou a fazê-lo em virtude de estar colaborando na organização da I Jornada Médico-Literária Paulista da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Regional de São Paulo (Sobrames – SP). Teve contatos com a administração da Faculdade de Medicina de Jundiaí; com autoridades da educação, da política e da saúde e, particularmente, com o então secretário da Saúde, Pedro Cérare Cavini Ferreira, que muito apoio deu àquele evento.

Disse-me que com o apoio recebido, a Jornada fora coroada plenamente de êxitos; que havia feito novas amizades e que tivera passado momentos agradabilíssimos nesta cidade. A sua admiração pelos jundiaienses redobrou, tamanha fora a receptividade e a acolhida obtidas!

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Conheci ainda recentemente outro médico. Mais experiente e bem mais velho. Disse-me que era formado há quase 29 anos e que outrora sua vida tinha sido marcada indelevelmente nesta cidade. Contou-me também que neste ano, tinha-se deslocado quatro vezes para cá, a fim de organizar um evento. Em função disso perambulou pelas ruas e bairros; percorreu seus arrabaldes; adentrou vários hotéis; esteve em diversos restaurantes; visitou instituições culturais e museus. Confessou-me que ficou perplexo com o tamanho e o desenvolvimento da cidade, que outrora lhe era familiar como a palma de sua mão e, agora, tinha que ser ciceroneado por uma médica, amiga sua, que aqui, há anos, radicara-se.

Viu a frugalidade da vida rural; ouviu e recordou o inesquecível sotaque campestre; identificou-se com os costumes dos imigrantes italianos, os oriundi assim como seus avós; encantou-se com o contraste da moderna arquitetura urbana dotada de belas construções, inúmeros edifícios de vanguarda espelhados com pele de vidro; atravessou pontes e viadutos; admirou-se com o parque onde hoje se localiza a prefeitura; passou por praças, bosques e percorreu largas e longas avenidas que se entrecruzam, dando ares de uma verdadeira metrópole.

Ao lado de toda essa estrutura material, também foi tocado pela mesma hospitalidade e acolhida do povo jundiaiense que outrora havia experimentado. Confessou-me do quão lhe era grato à cidade, às autoridades, aos intelectuais e aos comerciantes de Jundiaí.

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Sou sobejamente grato a Deus por ter permitido que esses três homens, ora narrados, fizessem parte de uma única vida – a minha! – e, por ter vivido nesta encantadora cidade e aqui ter recebido uma primorosa educação universitária, além de consentir que pudesse formar amizades que persistissem até hoje.

Por ocasião desta IX Jornada Médico-Literária Paulista não posso furtar-me de agradecer também a sua comissão organizadora na pessoa da dra. Josyanne Rita de Arruda Franco, catalisadora das forças políticas, educacionais, empresariais, literárias, artísticas e intelectuais de Jundiaí, e do jornalista Marcos Gimenes Salun pelo desprendimento, carinho, atenção, denodo, apoio logístico e senso responsabilidade que ambos tiveram para que tudo fosse feito da melhor forma possível dentro de nosso exíguo orçamento.

Sejam todos muito bem-vindos a este fraterno congraçamento literário-cultural mesclado, nesta edição, com as iguarias do delicioso roteiro gastronômico jundiaiense.

Por tudo e por todos, meu irrestrito muito obrigado a Jundiaí!


[*] Nota: discurso pronunciado no dia 27 de setembro de 2007, no auditório Elis Regina da Biblioteca Municipal de Jundiaí, Professor Nelson Foot, por ocasião da solenidade de abertura da IX Jornada Médico-Literária Paulista. O Bandeirante. Ano XVI – no 179 (outubro): 5-6, 2007.

Publicado em: às 1 01UTC dezembro 01UTC 2009 em 15:33  Deixe um comentário  

Setembro Especial

 

“Acontece com os livros o mesmo que com os homens: um pequeno grupo desempenha um grande papel.”

François-Marie Arouet –Voltaire (1694-1778) – Filósofo, escritor, poeta, dramaturgo e historiador francês.

 

Primavera, verão, outono e inverno perfazem as estações do ano e dão um colorido todo especial à vida. A variação, qualquer que seja ela, além de propiciar que saiamos da rotina, estimula-nos e revigora-nos. Já diziam os antigos romanos: “varietas delectat” – a variedade nos deleita.

 

Em analogia à letra da belíssima música “Águas de Março”, lançada em 1972, na efervescência da bossa-nova, pelo eminente maestro, refinado compositor e letrista Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1994), imortalizado simplesmente como Tom Jobim, cujos versos expressam: “são as águas de março fechando o verão e a promessa de vida no teu coração” –, setembro é um mês todo especial para a Sobrames paulista.

 

Se em março, com suas chuvas, sinaliza o final do verão, em setembro se inicia a primavera austral, no hemisfério sul. Além de a nossa querida regional ter sido fundada como afiliada da Sobrames Nacional em 16 de setembro de 1988, neste mesmo mês, nos anos pares, temos as eleições democráticas e diretas para a troca de diretoria e, tradicionalmente nos anos ímpares, a realização da Jornada Médico-Literária Paulista, como também com o lançamento de nossa Antologia.

 

A Antologia Paulista começou na gestão de Walter Whitton Harris (1999-2000), que tencionou jungir num só volume os trabalhos que foram publicados de abril de 1997 a março de 1999 nas “Páginas Sobrâmicas”, então suplemento literário do boletim “O Bandeirante”. O primeiro volume da Antologia Paulista veio a lume, em 1999. Em virtude da demanda de material “disperso”, Walter Whitton Harris não se conteve e realizou outra proeza ao final de sua gestão, lançando o segundo volume da Antologia Paulista (2000). Nesse, particularmente, tencionou perenizar das intempéries os trabalhos que “caíram em suas mãos” e que não haviam sido publicados anteriormente nas “Páginas Sobrâmicas”; em livros pelos autores, ou que não tinham sido consignados nos Anais do XVII Congresso da Sobrames Nacional realizado na cidade de São Paulo, em 1998, como também nos Anais da V Jornada Médico-Literária Paulista realizada em Águas de São Pedro, em 1999.

 

 Concluída essa dura empreitada inicial, graças aos méritos daquela diretoria e, particularmente, do próprio Walter Whitton Harris, a Antologia Paulista tem-se caracterizado por publicar bienalmente – sem ônus nenhum aos seus membros –, os trabalhos dos sócios apresentados ou não nas Pizzas Literárias, mas que foram selecionados para publicação em O Bandeirante, desde que seus autores disponibilizem adequadamente uma cópia à diretoria e, de preferência, gravada em disquete ou enviada eletronicamente via Internet.

 

Seguiram-se a III Antologia Paulista, em 2001, na gestão de Carlos Augusto Ferreira Galvão (2001-2002); a IV Antologia Paulista, em 2003, na gestão de Luiz Giovani (2003-2004); e a V Antologia Paulista, em 2005, na gestão de apenas dez meses de Karin Schmidt Rodrigues Massaro (janeiro a outubro de 2005).

 

Como já publicado anteriormente, uma das grandes metas da atual diretoria é preservar e enaltecer todas as conquistas das diretorias precedentes. Por isso, estaremos lançando neste mês, a Antologia Paulista de número VI, por ocasião da IX Jornada Médico-Literária Paulista.

 

A propósito, esse evento também faz parte da nossa história e da nossa alegria neste mês de setembro. A comissão organizadora tem estado estruturando-o com carinho desde que a atual diretoria foi eleita, em setembro de 2006, tamanha é a sua importância e responsabilidade, haja vista que nele acorrem sócios de diversas cidades do interior de São Paulo, sobramistas de outros Estados e, nos últimos eventos, tivemos a grata felicidade de receber médicos escritores com seus familiares de outros países, como Portugal e Argentina.

 

A primeira Jornada Médico-Literária foi concebida na segunda gestão de Flerts Nebó (1990-1992), sendo ele seu grande protagonista. A ideia inicial era de que ela servisse de experiência para que a Sobrames – SP trouxesse o Congresso Nacional para nossas plagas, em 1994, e, para não competir com esse evento de maior congraçamento dentre as diversas regionais, as nossas jornadas estaduais deveriam ser realizadas nos anos ímpares.

 

Assim, a I Jornada Médico-Literária Paulista ocorreu na cidade de Jundiaí, em 1991. Na ocasião, a escolha dessa cidade se deveu a dois motivos: 1. Fazia parte dos planos da diretoria realizá-la preferencialmente numa cidade onde houvesse faculdade de medicina, a fim de divulgar nossa entidade no meio acadêmico e atrair novos participantes. 2. Pedro Césare Cavini Ferreira, além de irmão de Régis Cavini Ferreira, então membro de nossa diretoria, era secretário de Saúde de Jundiaí, o que muito nos auxiliou na logística daquele evento, tendo sido posteriormente honrado por receber o primeiro título de sócio benemérito da Sobrames – SP.

 

Sabíamos de antemão que o XIV Congresso Nacional da Sobrames seria realizado na cidade de Recife (PE), em 1992. A regional paulista da Sobrames, apesar de novata, já era considerada muito atuante e fez-se representar naquele evento por Flerts Nebó (presidente), Madalena J. G. Musetti Nebó, Aida Lúcia Pullin Dal Sasso Begliomi e Helio Begliomini (vice-presidente) que apoiaram peremptoriamente Flerts Nebó em seu intento de realizar, em 1994, na cidade de São Paulo, o XV Congresso Nacional da Sobrames.

 

A Sobrames paulista não se contentou com a experiência obtida pela organização da primeira jornada em Jundiaí. Almejava se aprimorar, corrigindo erros e sedimentando conhecimentos. Assim, na gestão seguinte liderada por Helio Begliomini (1992-1994), foi realizada a II Jornada Médico-Literária Paulista na cidade de Bragança Paulista, em 1993. Nesse evento, nossa regional contou com a colaboração especial de Carlos Alberto Pessoa Rosa, cardiologista, então membro da Sobrames – SP e professor da Faculdade de Medicina de Bragança.

 

Seguiram-se as jornadas de Santos (1995), Campos do Jordão (1997), Águas de São Pedro (1999), Botucatu (2001), Campos do Jordão (2003) e Serra Negra (2005).

 

A IX Jornada Médico-Literária Paulista tem não somente um peso histórico como um sabor todo especial, haja vista que tal epopeia começou há 16 anos nesse mesmo município, ou melhor, numa cidade que em poucos anos se emancipou no desenvolvimento, conjugando características campestres ao lado da elegância e das sofisticações das metrópoles. A versão atual desse evento conta com o apoio especial e logístico de nossa vice-presidente, Josyanne Rita de Arruda Franco, residente em Jundiaí e que não tem medido esforços nesse intento.

 

O conhecimento da história e, particularmente da história viva e preservada ao longo do tempo não somente aumenta nossa responsabilidade sobre a IX Jornada Médico-Literária Paulista, como também oferece iguarias especiais a serem apreciadas nesse evento. Neste ensejo vale a pena recordar o pensamento de Jacques Anatole François Thibault (1844-1924), crítico e escritor francês, mais conhecido pelo pseudônimo de Anatole France: “As ideias de ontem fazem os costumes de amanhã”.

 

 Por tudo isso setembro é um mês todo especial e o será ainda maior com seu prestígio e sua presença. A Sobrames paulista comemora e agradece!

Publicado em: às 10 10UTC novembro 10UTC 2009 em 18:14  Deixe um comentário  

Aprendendo com Orhan Pamuk [1]

 “Escrever é uma percepção do espírito. É um trabalho ingrato que leva à solidão.”

Blaise Cendrars (1887-1961), escritor francês.

  

Ferit Orhan Pamuk nasceu em Istambul, Turquia, em 7 de junho de 1952, contando atualmente com 55 anos. Oriundo de uma grande e aquinhoada família pôde estudar além-fronteiras.

Desde a sua juventude, mostrou ser amante das artes plásticas. Começou a cursar arquitetura, mas acabou por se licenciar em jornalismo pela Universidade de Istambul. Entretanto, nunca chegou a exercer a profissão, pois, aos 22 anos, decidiu dedicar-se em tempo integral à escrita. O seu primeiro romance, Cevdet Bey and His Sons, foi publicado sete anos depois, em 1982, tendo sido distinguido com dois prêmios literários da Turquia. No ano seguinte, foi publicada a obra The Silent House, que conquistou, na França, o Prix de la Découverte Européene. O livro que marcou sua ascensão no mercado literário internacional foi A Cidadela Branca, publicado em 1985, na Turquia, e, no ano 2000, em Portugal.

Seus textos retratam as vivências turcas, as desigualdades entre os cidadãos da atual Istambul, assim como as comparações feitas entre a Turquia otomana e a Turquia moderna.

Entre 1985 e 1988, Pamuk foi professor convidado da conceituadíssima Universidade de Columbia, em Nova Iorque.  Foi nessa metrópole que Orhan Pamuk escreveu grande parte do livro Os Jardins da Memória, distinguido na França com o Prix France Culture. Essa foi a obra que o consolidou como autor de reputação internacional.

Seu romance A Vida Nova é um dos livros mais lidos em seu país. Retrata a obsessão de um jovem estudante por um livro mágico. A essa obra seguiram-se: Meu Nome é Vermelho – distinguida com três prestigiados prêmios literários internacionais – é uma de suas mais afamadas produções. Trata-se de um romance que se passa no século XVI, na Turquia, onde se mesclam mistério e amor. Snow é um livro de memórias da cidade onde o autor nasceu e tem vivido a maior parte de sua vida.

Sua carreira nas letras tem sido muito bem-sucedida, tornando-se, na atualidade, no maior romancista turco. Sua fama extrapolou seu país, pois seus livros já foram traduzidos para mais de trinta vernáculos, estando presentes em mais de 40 países.

Entretanto, teve igualmente uma projeção sinistra. Num artigo de sua autoria publicado em jornal suíço, teve a coragem de acusar seu país da prática de genocídio contra os armênios, após a I Grande Guerra Mundial, pelo assassinato de 30 mil curdos. Se por um lado teve que enfrentar a justiça turca em tribunais, por outro, seu nome percorreu o mundo, tamanha foi a repercussão a seu favor que este caso suscitou.

Infelizmente, em fevereiro de 2007, indignado com o assassinato do jornalista e escritor Hrant Dink por um fanático nacionalista, que também o ameaçou com o mesmo desfecho, resolveu deixar a Turquia por tempo indeterminado.

Os livros e o trabalho de Orhan Pamuk têm sido galardoados com diversos prêmios literários de projeção internacional. Além dos já assinalados foi distinguido com o Prêmio Internacional IMPAC, em Dublin (2003); o Friedenspreis (2005) e o Prêmio Médicis para literatura estrangeira (2006).

Contudo, a consagração máxima em sua vida veio aos 54 anos, em 2006, pela outorga do Prêmio Nobel de Literatura desse ano, sendo o primeiro a recebê-lo de sua terra natal. Assim justificou o Comitê do Nobel: “em busca da alma melancólica da sua terra natal encontrou novas imagens espirituais para o combate e para o cruzamento de culturas”.

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  Orhan Pamuk

Lendo a tradução do discurso que proferiu por ocasião da solenidade magna da entrega do Prêmio Nobel, chamou-me atenção não por ter sido longo, erudito ou rebuscado, ao contrário, por ter sido elaborado num linguajar coloquialmente simples, como as grandes verdades da vida, prendendo naturalmente a atenção do ouvinte ou do leitor.

O fulcro de sua fala desenrolou mostrando o seu bom relacionamento com seu pai, a quem sempre o apoiou como escritor, muito antes de sua fama.  Abordou com suspense e reflexões um fato que muito o marcou. Seu pai havia-lhe deixado uma pequena valise, contendo manuscritos e cadernos, pois já vislumbrava o término de seu tempo. Pedia para que bem a guardasse e a abrisse somente após sua derradeira partida.

Relutava em abri-la por temor de descobrir que seu pai pudesse ser um bom escritor, pois desejava que ele fosse apenas seu pai.  Nesse impasse ele afirma que o “segredo do escritor não é inspiração – pois nunca está claro de onde ela vem –, é a sua teimosia, a sua paciência”.

Confessou que seu pai tivera uma grande biblioteca e que em sua mocidade desejara ser um poeta em Istambul. Ademais, reconheceu que ele jamais esquecera de muito lhe falar dos escritores mundiais, dos paxás e dos grandes líderes religiosos. Contudo, questionou: como seria possível ao meu pai ser um escritor se ele não era afeito à solidão, assim como ele, Pamuk, havia experimentado? Ao contrário, seu pai amava as multidões, as companhias, misturando-se com amigos e partilhando piadas. Daí, define que “escrever é transformar o olhar para dentro em palavras, estudar o mundo em que essa pessoa entra quando se retira para dentro de si, e fazê-lo com paciência, obstinação e alegria”. Por conseguinte, refere que “um autor tenta por anos descobrir o segundo ser dentro dele”.

Em outras palavras, Pamuk aproveitava esse fato para reafirmar uma grande verdade atinente a todo(a) aquele(a) que extravasa na escrita suas idéias ou os seus sentimentos. O escritor é um ser solitário, ou melhor, produz sua obra no interior de sua solidão, consigo mesmo, na intimidade casta de seu ser, sem mais ninguém, não deixando de ser aquilo que escreve, que evidencia, que manifesta aos outros, um presente muito original, pois é parte de sua vivência, ou até um pedaço de si mesmo.

Pamuk após muitas conjecturas e ponderações, não se conteve e abriu a valise dias após, fato esse percebido e apreciado caladamente por seu pai em visita realizada na semana seguinte. Não chegou a explicitar o seu teor, mas, veladamente, deu a entender que nela continha escritos pessoais não-compartilhados que seu pai tivera feito ao largo da vida.

Nas entrelinhas dessa cena, percebemos não apenas uma influência genética na verve literária de Pamuk, como também ratifica-nos que todo artista e, particularmente o escritor, pode-se perpetuar no tempo e atravessar virtualmente mundos geográficos díspares – germens da imortalidade e do reconhecimento a que todo ser humano aspira –, tão longo quanto forem preservadas e divulgadas suas obras.

Tenhamos certeza de que a Sobrames – SP constitui-se num cenáculo onde se cultivam tais virtudes.


[1] O Bandeirante. Ano XVI – no 177 (agosto): 1 e 12, 2007; Suplemento Cultural da Revista da Associação Paulista de Medicina – no 183 (agosto/setembro): 2-3, 2007.

Publicado em: às 28 28UTC outubro 28UTC 2009 em 14:21  Deixe um comentário  

Você Acredita em Milagres?[*]

 

“Pensa-se hoje na revolução, não como maneira de se solucionarem problemas postos pela atualidade, mas como um milagre que nos dispensa de resolver problemas.”

 Simone Weil (1909-1943), filósofa francesa.

 

A palavra “milagre” vem do latim miraculum e significa algo que surpreende e que possa causar admiração. Entretanto, estamos acostumados a entender o milagre muito além destas sinonímias, especificamente como a teologia ensina, ou seja, a ocorrência de um fato maravilhosamente portentoso, que supere as leis da natureza e não encontre explicações na tangência das ciências, mas somente em Deus.

 

O milagre não acontece por encomenda ou com hora e data marcadas, como observado nas portas de algumas seitas pentecostais. Nem é item de liquidação ou peça de estoque, disponível a qualquer hora e a todos os gostos. O milagre é por definição um fenômeno mui infrequente ou mesmo raro, mas concreto e possível.

 

A Sobrames não é uma entidade religiosa e tampouco confessional. Entretanto, o respeito a todas as crenças e religiões com seus valores e símbolos deve ser uma das características que todos os seus membros devem exercitar.

 

Embora na Sobrames – SP não haja milagres, pode-se testemunhar que nela têm ocorrido grandes prodígios, mês-a-mês, ano-a-ano, dificilmente repetíveis nas devidas proporções, noutras entidades mais tradicionais, de maiores recursos e de maior influência. Vejamos:

 

Embora nossa regional seja rica em valores humanos e literários é mui pobre em recursos econômicos e materiais, advindos de uma pequena parcela de seu quadro social. A secretaria contém em seu arquivo aproximadamente 130 membros cadastrados, contudo, apenas cerca de 1/3 deles tornam-se anualmente adimplentes.

 

Apesar da inflação e do aumento indistinto de todas as tarifas, impostos e taxas existentes no Brasil, que ocorrem ano-a-ano, o valor da anuidade está modicamente fixado em R$ 120,00 (cento e vinte reais) ou aproximadamente US$ 57 (cinquenta e dólares americanos)[†]. Através de um leve exercício de aritmética, pode-se depreender que cada sócio que consegue honrar com sua adimplência anual contribui com apenas R$ 10,00 (dez reais) por mês que, por sua vez, representam R$ 0,35 (trinta e cinco centavos) por dia, ou seja, irrisoriamente o equivalente a ¼ de cafezinho diário!

 

E aí está subentendido algo singelamente maravilhoso. Com essa diminuta importância, o associado tem direto de receber mensalmente O Bandeirante, boletim oficial da entidade, de 8 a 12 páginas, com apresentação bonita, leve e versátil, e de conteúdo rico no que tange a trabalhos e informações. Ademais, o sócio não somente desfruta de uma agradável leitura, como também poderá ter a oportunidade de ver seus trabalhos publicados e divulgados no Brasil e noutros países através da edição eletrônica, condição essa dificilmente acessível em outros periódicos.

 

Todos os associados em dia com a tesouraria que apresentarem mensalmente seus textos nas Pizzas Literárias, tanto em verso quanto em prosa, desde que os disponibilizarem à diretoria, estarão automática e respectivamente concorrendo aos prêmios anuais “Bernardo de Oliveira Martins” e “Flerts Nebó”, cuja avaliação é feita anonimamente por um corpo de jurados composto necessariamente por sobramistas de outros Estados. Ademais, a partir desta gestão, foram criados mais dois prêmios com regulamentos próprios: “Melhor Desempenho na Sobrames – SP”, ou prêmio “Aldo Miletto”, e prêmio “Assiduidade”, com o epônimo de “Rodolpho Civile”, a fim de estimular ainda mais a presença e a participação nas atividades promovidas ou apoiadas pela Sobrames – SP.  

 

Frequentemente nas nossas Pizzas Literária realizam-se graciosamente sorteios de livros e outros brindes aos presentes.

 

É tradicional, a cada três meses, a diretoria lançar o Prêmio Superpizza, que se traduz por um desafio literário, tanto em prosa quanto em verso, a partir de um tema proposto. A avaliação dos trabalhos sempre é feita por um profissional alheio à entidade.

 

Bienalmente os sócios podem desfrutar de preços vantajosamente diferenciados, na tradicional Jornada Médico-Literária Paulista que, neste ano, celebrará sua IX edição de 27 a 30 de setembro, na cidade de Jundiaí, assim como nas Jornadas Médico-Literárias de outras regionais e no Congresso da Sobrames Nacional.

 

Da mesma forma, os associados poderão publicar seus trabalhos nas Coletâneas da Sobrames – SP, editadas bienalmente e a preços bem convidativos com relação ao custoso mercado editorial existente. Digno de muito encômio é salientar que os trabalhos dos sócios publicados em O Bandeirante são inseridos graciosamente na Antologia da Sobrames – SP, com periodicidade também bienal.

 

Esses feitos prodigiosos ocorrem com os sócios adimplentes ao custo atual de apenas R$ 10,00 (dez reais) mensais!!!

 

A título de reflexão devem-se salientar dois pontos:

 

1. Essas conquistas só se tornaram possíveis porque todas as diretorias, indistintamente, que se revezaram no comando da Sobrames – SP, não malversaram os parcos recursos disponíveis. Ao contrário, tal qual alegoricamente à multiplicação bíblica dos pães e dos peixes, deram não somente de si, mas o melhor de si, acumulando, zelando, aprimorando e engrandecendo a entidade.

 

2.  Para manter e incrementar as grandes e honrosas conquistas obtidas até o momento, a entidade necessitará no próximo ano não somente majorar sua anuidade, corrigindo perdas oriundas de inflações anuais, o que estará, infelizmente, aquém de sua necessidade, mas precisa, com premência, aumentar exponencialmente seu quadro social, pois seu custo fixo atual – basicamente correio, editoração, impressão e envelopes –, diluir-se-ía para um contingente bem maior do que o atual.

 

Nós contamos com a imprescindível e inestimável ajuda de Deus, mas temos certeza de que sua manifestação cotidiana não se faz rotineiramente através de milagres. Ou, nas palavras de Herman Hesse (1877-1962), escritor alemão, “para que resulte o possível deve ser tentado o impossível”.

 

Continuamos trabalhando pela causa da Sobrames – SP. O que você pode fazer por ela, que lhe tem feito muito ao longo dos anos?

 

 


[*] O Bandeirante. Ano XV – no 176 (julho): 1 e 12, 2007.

[†] Cotação de um dólar americano em câmbio paralelo para venda, em 3 de julho de 2007, era de 2,080 reais.

Publicado em: às 22 22UTC outubro 22UTC 2009 em 17:47  Deixe um comentário  

“Um por Todos e Todos por Um!” [1]

  “Era mais importante ensinar a humildade aos amigos do que desafiar os inimigos com a verdade.”

 Santo Agostinho (354-430, sermão 284)

 

“Um por todos e todos por um!” Quem não conhece esse hino de “guerra” muito usado em competições esportivas, gincanas e disputas envolvendo times?

 

Ele realmente acirra os ânimos da equipe, eleva o brio dos participantes, enfim, motiva-os para a consecução de um objetivo comum: vencer a partida, a competição ou o campeonato. Torna-se extremamente oportuno relembrá-lo por ocasião da realização da 15a edição dos Jogos Pan-Americanos a ser realizada de 13 a 29 de julho, na cidade do Rio de Janeiro.

 

O Brasil volta a receber os jogos Pan-Americanos após 44 anos. Outrora, em 1963, a cidade que os recebeu foi São Paulo e para cá se dirigiram 1.655 atletas de 22 países, em 19 modalidades esportivas. Agora a cidade maravilhosa receberá 5.500 atletas de 42 países, que disputarão 34 modalidades esportivas, com um orçamento estimado de 3,7 bilhões de reais!

 

Um por todos e todos por um! Vale destacar que esse grito de autoestímulo não se aplica a competidores isolados. Ele certamente foi criado para incitar uma equipe como um todo diante de uma emulação qualquer, por mais desafiadora que seja. Nele os participantes colocam suas individualidades e potencialidades para a obtenção de um bem maior e comum. Não é pertinente que um ou outro queira se evidenciar buscando causa própria, ou que os louros da vitória sejam atribuídos a si mesmo. Ao contrário, num trabalho de equipe existe homogeneização de interesses e acréscimos de talentos. Os atletas reservas são tão importantes quanto os titulares e o revezamento se torna salutar não somente para ambos, mas muito mais para a equipe, pois será ela quem receberá o orgulho da vitória, ou amargará a desolação da perda.

 

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[1] O Bandeirante. Ano XV – no 175 (junho): 1, 2007.

 

Conquista pelo Brasil do hexacampeonato da Liga Mundial de Vôlei, na França, em agosto de 2006.

 

A atual diretoria da Sobrames – SP tem almejado realizar não somente um trabalho de equipe com os membros da diretoria executiva, mas também uma interação como os membros efetivos e suplentes do conselho fiscal, assim como com os demais associados. Esses, no time diretivo da Sobrames – SP, poderiam ser considerados reservas, entretanto, gostaríamos e temos observado que alguns deles têm dado também a sua efetiva contribuição como titulares, em trabalho de revezamento e de soma.

 

Não se pretende que seja engrandecido o presidente ou a diretoria isoladamente, mas, sim, única e exclusivamente a entidade. E nesse certame necessitamos de muitos jogadores, pois o páreo é longo, com muitos e difíceis obstáculos para serem vencidos. Não rejeitaremos os atletas que queiram disponibilizar seus talentos em prol da entidade, ainda que não possam participar das reuniões da diretoria. Há muitas tarefas que podem ser feitas nos bastidores e são de grande importância. Afinal, o que seria dos atletas sem uma outra equipe basilar que lhes fornecesse todos os subsídios de logística para viabilização de uniformes, passagens, patrocínio, passaportes, condicionamento físico, restabelecimento da saúde, hotelaria…?!

 

Talvez a seleção brasileira de futebol que competiu na última Copa do Mundo, em 2006, na Alemanha, não sirva de exemplo, pois parece que as vedetes internacionais que lá desfilaram estavam muito mais preocupadas com a situação individual do que com a coletiva. Aliás, a falta de garra e de empenho contribuiu também pelo fracasso apresentado. Ao contrário, o exemplo da seleção brasileira de vôlei, quer masculina quer feminina, tem mostrado ao longo dos anos um trabalho homogêneo, constante e crescente,  no qual não faltam espírito de equipe, vontade de ganhar e amor à camisa.

 

“Para um bom entendedor, meia palavra basta”, diz o velho dito popular. Resta saber de você, caro confrade ou confreira da querida Sobrames – SP, em qual atividade poderia colaborar com espírito de equipe, desprendimento e amor à nossa causa. Lembra-se de que estar presente e torcer já é uma grande colaboração. Mas a Sobrames – SP necessita de algo mais. Deixaremos para que você mesmo(a) sugira e diga-nos em que posição gostaria de ser escalado(a) para que o nosso time seja melhor, mais participativo, mais atuante e mais vitorioso.

 

A Sobrames – SP muito lhe agradecerá!

Publicado em: às 16 16UTC outubro 16UTC 2009 em 17:03  Deixe um comentário  

Procura-se uma Sede – Reminiscências Históricas de um Antigo Sonho

 “Um homem percorre o mundo inteiro em busca daquilo que precisa e volta à casa para encontrá-lo.”

 George Augustus Moore (1852-1933), escritor irlandês. 

 

 

Em setembro de 2006, a Sobrames – SP completou seu 18o aniversário, aliás, de mui profícua existência, com um grande dossiê de serviços prestados aos seus sócios e à sua causa.

 

Com sua maioridade, achamos que seja hora deveras oportuna de repensar num antigo sonho acalentado desde nosso primeiro mandato à frente desta seccional (1992-1994), qual seja o de ter um domicílio próprio.

 

Desde a fundação da regional paulista da Sobrames – SP, em 16 de setembro de 1988, sua sede tem funcionado na casa do confrade Flerts Nebó, com exceção do período de 1994-1996. Somos testemunha do carinho e da acolhida constantes que ele e a sua esposa, Madalena J. G.Musetti Nebó, deram em sua residência à entidade, assim como a todos os membros das sucessivas diretorias.

 

Historicamente, salientamos que, ainda em nossa primeira gestão, conseguimos um espaço no edifício da Associação Paulista de Medicina – APM para que nossas reuniões de diretoria pudessem ser lá realizadas. Entretanto, na ocasião, os demais membros da diretoria não viam claramente a necessidade de se ter esse espaço. Alguns temerosos, até contra-argumentaram que a Sobrames – SP poderia sofrer ingerências administrativas dessa respeitável instituição médica. Como somos democrata, declinamos essa chance de ouro, pois poderíamos ter projetado a entidade de forma mais efetiva e, com isso, amealhado muito mais sócios do que da forma isolada como nos encontramos hoje.

 

Sucedeu-nos na presidência da entidade Carlos Luiz Campana (1994-1996). Infelizmente, sua gestão foi turbulenta, gerando, dentro da diretoria, um clima desfavorável de trabalho em equipe, com vários pedidos de demissão durante seu mandato. Apesar do ambiente pouco motivador, ficamos participando ativamente, junto a outros três diretores, até o final da gestão, ajudando-o a cumprir suas metas. Perboyre Lacerda Sampaio, à época desempenhando a função de orador, apesar de não participar ativamente, cedeu as dependências de seu consultório e de sua casa durante essa gestão, para que nelas fossem realizadas as reuniões da diretoria.

 

Campana conseguiu, quase ao término de seu mandato, uma sala na Associação Paulista de Medicina para uma sede. Embora fosse pequena e modesta, transportou para lá todo o acervo de livros que a Sobrames – SP dispunha. Entretanto, o ambiente negativo e conturbado que foi anteriormente criado fez com que a diretoria que o sucedesse, liderada por Paulo Adolpho Leierer (1996-1998), retornasse, de imediato, o acervo de livros à casa de Flerts Nebó que, posteriormente, em sua maior parte, foi doado também por falta de espaço. Assim, perdeu-se pela segunda vez um espaço ou mesmo uma boa proximidade com a tradicional APM e, consequentemente, com significativa parcela da classe médica.

 

Neste breve testemunho de resgate histórico, devemos agradecer aos confrades Flerts Nebó e sua esposa, Madalena Nebó, por terem cedido gentilmente sua moradia até o término da gestão passada, condição necessária para que a entidade se mantivesse atuante.

 

Vários membros da atual diretoria já ofereceram seus consultórios e domicílios, inclusive Flerts Nebó, para as reuniões administrativas. Entretanto, em consenso, os membros da mesma diretoria julgaram que a sociedade deva, necessariamente, procurar seu próprio espaço, tanto independente quanto possível. A Sobrames – SP, que se emancipou em idade, necessita também se emancipar em seu território. Faz-se mister que ela tenha um domicílio próprio, impessoal, gratuito e desvinculado das residências de seus associados, a fim de que seu arquivo e acervo sejam devidamente guardados e organizados, e que os trabalhos e feitos de seus membros sejam protegidos, catalogados, divulgados, enaltecidos e perenizados.

 

A busca por uma sede é um antigo desejo de alguns membros da entidade e uma das metas desta diretoria. Entretanto, sabemos o quão difícil ela é. Contamos pressurosamente com a ajuda e a influência de todos(as) os(as) nossos(as) associados(as) neste desiderato, pois entendemos que este é um bem que extrapola uma pessoa, uma gestão, um mandato, uma diretoria. Só dessa forma, a mais profissional e independente possível, a saga histórica da entidade – com seus fatos, feitos e fotos –, e a memória de seus membros, através da imortalidade de suas obras, poder-se-ão se manter incólumes durante as próximas décadas ou séculos. Quem poderá nos ajudar nesta nobre causa?

 


[*] O Bandeirante. Ano XV – no 174 (maio): 1, 2007.

 

Publicado em: às 16 16UTC outubro 16UTC 2009 em 16:57  Deixe um comentário  

Instituídos mais dois Prêmios na Sobrames- SP

 “O esforço dirigido a um objetivo tem sempre por prêmio, com a consecução daquilo a que se aspira, a satisfação que o triunfo proporciona.”

 Thomas Wittlam Atkinson (1799-1861), arquiteto e escritor inglês.

 

 

Premiar é um verbo de dupla via. Premiar tem como sinônimo estimular, desenvolver, valorizar, enaltecer alguém através de sua obra ou feitos e ser premiado é ser reconhecido, merecido, ou distinguido entre seus pares.

 

Cada vez mais clubes de serviço, associações esportivas, empresas, entidades culturais, filantrópicas, científicas e profissionais, inclusive dentro das mais diversas sociedades de especialidades médicas, têm instituído concursos, a fim de fomentar entre seus participantes ou associados um maior empenho em suas tarefas, um maior rendimento na consecução de determinadas metas ou produção de melhores trabalhos. Por vezes, certos prêmios visam identificar virtuoses, reconhecer pessoas abnegadas que atuaram de forma exemplar, ou evidenciar profissionais que representaram de forma notória uma entidade ou um segmento associativo.

 

É próprio do ser humano querer receber afagos por aquilo que faz, sobremodo quando o realiza com distinção. Elogiar quando atitudes, projetos, empreendimentos ou trabalhos são meritórios é, ao mesmo tempo, observar, acompanhar, comparar, reconhecer e estimular pedagogicamente outras ações similares ou melhores do que aquela.

 

A prática de prêmios na Sobrames – SP data de 1997, quando, na gestão de Paulo Adolpho Leierer (1996-1998), foi instituído o concurso para “A Melhor Poesia do Ano”, que recebeu o nome de Prêmio “Bernardo de Oliveira Martins”, grande e alegre poeta de nossa regional que havia falecido há pouco tempo. Em 1999, na gestão de Walter Whitton Harris (1999-2000), foi instituído por analogia o concurso para “A Melhor Prosa do Ano”. Dessa vez, a diretoria que vigia resolveu homenagear alguém muito atuante, primordial, verdadeira viga-mestra para a entidade, e concedeu o nome de Prêmio “Flerts Nebó”, ao confrade que foi co-fundador, primeiro presidente e grande trabalhador pela causa da Sobrames – SP. Em 2003, no início da gestão de Luiz Giovani (2003-2004), foi criado o PrêmioSuperpizza”, que ocorre a cada trimestre com início no mês de janeiro. Trata-se de uma emulação que tenciona desenvolver a criatividade dos autores para que produzam seus textos em prosa ou verso a partir de um tema previamente sugerido.

 

Esses três prêmios são de cunho estritamente técnico, ou seja, os associados são avaliados pelo trabalho literário produzido. Desde quando planejávamos voltar à administração da entidade, tencionávamos criar dois novos prêmios de caráter participativo. A ideia foi amplamente discutida em várias reuniões oficiosas e oficiais da atual diretoria e democraticamente aceita.

 

Assim, foram criados os Prêmios “Melhor Desempenho na Sobrames – SP” e o Prêmio “Assiduidade”. O Prêmio “Assiduidade” será outorgado para aquele(s) membro(s) que participar(em) do maior número de Pizzas Literárias ao longo do ano, tendo duas modalidades: Grande São Paulo e Interior.

 

O Prêmio “Melhor Desempenho na Sobrames – SP” será concedido anualmente a um só membro que participar do maior número de atividades promovidas através ou apoiadas pela Sobrames – SP. No regulamento há uma discriminação de quais são as atividades passíveis de serem premiadas com os respectivos pontos. Foi decidido também que a pontuação será levada em consideração já a partir de janeiro de 2007, e seu gerenciamento ficará a cargo da 2a tesoureira, Ligia Terezinha Pezzuto.

 

A fim de homenagear sócios que representaram ou que ainda representam valores literários e/ou associativos à nossa entidade, cada membro da diretoria executiva e do conselho fiscal (titulares e suplentes) presentes nas reuniões da entidade, indicou secretamente três nomes que formaram uma relação de quatorze elegíveis. Foram obstados de serem indicados os nomes de Bernardo de Oliveira Martins, Flerts Nebó, por já terem seus nomes vinculados a prêmios anuais, e o de Helio Begliomini, por ser o atual presidente da Sobrames – SP e por ter sido o idealizador de tais honrarias.

 

Os quatorze diferentes nomes previamente indicados entraram numa cédula e, através de nova votação secreta dos membros da diretoria e do conselho fiscal (titulares e suplentes), foram apurados os dois mais votados. Assim, o Prêmio “Melhor Desempenho na Sobrames – SP” será chamado de Prêmio “Aldo Miletto” e o Prêmio “Assiduidade” receberá o nome de Prêmio “Rodolpho Civile”.

 

Com isso, verifica-se na regional paulista da Sobrames um reconhecimento a dois dentre tantos outros membros que ao largo de dezoito anos de profícua existência lhes são muito caros, ação lidimamente anti-iconoclasta, através da força da democracia, exercida serenamente dentro da diretoria e do conselho fiscal.

 

A atual diretoria espera que esses dois galardões venham não somente distinguir e reconhecer confrades e confreiras presentes e atuantes, mas também, fomentar maior participação associativa, fortalecendo assim, ainda mais, nossa entidade.

 


[*] O Bandeirante. Ano XV – no 173 (abril): 1, 2007.

 

Publicado em: às 16 16UTC outubro 16UTC 2009 em 16:55  Deixe um comentário  

Metas Basilares

 “Por detrás das vitórias de Alexandre, encontramos sempre Aristóteles.”

 Charles André Joseph Marie de Gaulle (1890-1970), general francês.

 

Ainda bem antes de ser estimulado a formar uma chapa para concorrer à administração dos destinos da queridíssima Sobrames paulista – biênio 2007-2008 –, fui convidado por diversas vezes para participar de reuniões da diretoria, então vigente.

 

Apesar de ser um dos fundadores dessa regional e de ter acompanhado, prestigiado e mesmo participado da imensa maioria de seus projetos, atividades e realizações ao longo de seus 18 anos, sempre há o fator surpresa quando se passa da condição de meros espectadores para a de protagonistas. Aqueles podem facultativamente assistir, frequentar, apoiar, criticar, aplaudir, incentivar, desprestigiar e até se omitir, enquanto estes são os responsáveis pelo “fazer acontecer”, ou seja, “tornar concreta” a virtualidade das ideias e dos ideais; executar ações que viabilizem a estrutura administrativa e a logística da entidade, tarefa trabalhosa e complexa, sobremodo numa entidade paradoxalmente farta de seletos valores humano-culturais, mas dotada de parcos recursos econômicos.

 

Assim, após decidir formar uma chapa e concorrer ao pleito em setembro de 2006, achei por bem continuar frequentando as reuniões da diretoria, pois muito tem sido feito na entidade e pela entidade, nas sucessivas diretorias que se têm revezado no poder.

 

A fim de “pegar o bonde andando” (perdoem-me os jovens, pois, provavelmente nunca viram um bonde parado, quanto mais andando!) estimulei a todos os componentes da atual diretoria, que inclui quatro debutantes novéis na administração da entidade, que participassem de reuniões mensais oficiosas. E assim fizemos durante três meses subsequentes à nossa eleição, antes mesmo da posse.

 

Essas reuniões foram sobejamente proveitosas e conseguimos delinear algumas propostas basilares. Ei-las:

 

Manter todas as conquistas das diretorias precedentes. Quando se analisa os diversos projetos que a Sobrames – SP tem rotineiramente feito, que foram consistentes conquistas acumuladas em diversas gestões, verifica-se o muito que ela tem disponibilizado aos seus associados, que podem até não dar o devido valor, sobremodo quando se leva em consideração que são poucas as pessoas que se oferecem para empreendê-los ou colaborar em sua logística. E como preito de reconhecimento aos nossos precedentes, nós os homenageamos com o pensamento em epígrafe de Charles de Gaulle.

 

Buscar um lugar para reuniões da diretoria e espaço para uma sede. Embora houvesse ofertas de residências, assim como consultórios para realizar as reuniões da atual diretoria, seus membros, consensualmente, resolveram optar por um lugar necessariamente não-vinculado ao domicílio de nenhum de seus membros. A entidade recentemente completou 18 anos de existência. Com sua maioridade é hora de tentar alçar voos mais longos e torná-la mais profissional e independente. Entretanto, devemos reconhecer e agradecer aos estimados confrades Flerts Nebó e Madalena J.G.Musetti Nebó por terem gentilmente cedido suas dependências para que a sociedade, desde seu início, realizasse reuniões de diretoria, assim como lançamentos de Coletâneas bienais. Sem essa grandiosa colaboração, talvez não tivéssemos chegado ao presente da forma robusta e organizada como chegamos.  

 

Aumentar o número de sócios: A Sobrames paulista dispõe de um cadastro atual de cerca de 130 pessoas que participam ou que já participaram da entidade, apenas nos últimos anos. Infelizmente, muitos acabam se inscrevendo apenas para receber um certificado. Aproximadamente 1/3 deste modesto contingente costuma estar adimplente com a tesouraria, apesar do valor módico da anuidade. As maiores despesas são fixas e despendidas com a feitura de O Bandeirante, correio, extras das Jornadas e com a Antologia que é bienal, custeada totalmente pela entidade. O Bandeirante e a Antologia são impressos regularmente com 250 a 300 unidades, tiragem essa que proporciona uma melhor relação custo/benefício passível de se obter num orçamento gráfico. Assim, incrementar o número de associados pagantes proporcionará aumento do orçamento e diluição de gastos que não se pode mais reduzir.

 

Entretanto, mais do que se levar em conta o aspecto financeiro, urge que o quadro social aumente, a fim de que a entidade seja oxigenada em ideias, enxertada em participações, mas, sobretudo, enriquecida com interessados (as) em doar-se por ela. Essa tarefa deve, necessariamente, ser empreendida por todos, diretoria e associados.

 

Comunicação. A comunicação é fundamental para aumentar o número de sócios e crescer. Além das ações já realizadas, a diretoria resolveu enviar O Bandeirante, seu órgão oficial informativo-literário, através da mídia eletrônica, assim como estudar a viabilidade de ter uma página própria na Internet e, através dela, oferecer outros serviços gratuitos aos seus associados adimplentes.

 

As tarefas são grandes e desafiadoras. A diretoria está muito animada e empenhada. Resta saber o que os associados, cada qual a seu modo e disponibilidade, podem igualmente fazer pela nossa querida Sobrames – SP.

 

 


[*] O Bandeirante. Ano XV – no 172 (março): 1, 2007.

 

Publicado em: às 16 16UTC outubro 16UTC 2009 em 16:49  Deixe um comentário  
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