Aprendendo com Orhan Pamuk [1]

 “Escrever é uma percepção do espírito. É um trabalho ingrato que leva à solidão.”

Blaise Cendrars (1887-1961), escritor francês.

  

Ferit Orhan Pamuk nasceu em Istambul, Turquia, em 7 de junho de 1952, contando atualmente com 55 anos. Oriundo de uma grande e aquinhoada família pôde estudar além-fronteiras.

Desde a sua juventude, mostrou ser amante das artes plásticas. Começou a cursar arquitetura, mas acabou por se licenciar em jornalismo pela Universidade de Istambul. Entretanto, nunca chegou a exercer a profissão, pois, aos 22 anos, decidiu dedicar-se em tempo integral à escrita. O seu primeiro romance, Cevdet Bey and His Sons, foi publicado sete anos depois, em 1982, tendo sido distinguido com dois prêmios literários da Turquia. No ano seguinte, foi publicada a obra The Silent House, que conquistou, na França, o Prix de la Découverte Européene. O livro que marcou sua ascensão no mercado literário internacional foi A Cidadela Branca, publicado em 1985, na Turquia, e, no ano 2000, em Portugal.

Seus textos retratam as vivências turcas, as desigualdades entre os cidadãos da atual Istambul, assim como as comparações feitas entre a Turquia otomana e a Turquia moderna.

Entre 1985 e 1988, Pamuk foi professor convidado da conceituadíssima Universidade de Columbia, em Nova Iorque.  Foi nessa metrópole que Orhan Pamuk escreveu grande parte do livro Os Jardins da Memória, distinguido na França com o Prix France Culture. Essa foi a obra que o consolidou como autor de reputação internacional.

Seu romance A Vida Nova é um dos livros mais lidos em seu país. Retrata a obsessão de um jovem estudante por um livro mágico. A essa obra seguiram-se: Meu Nome é Vermelho – distinguida com três prestigiados prêmios literários internacionais – é uma de suas mais afamadas produções. Trata-se de um romance que se passa no século XVI, na Turquia, onde se mesclam mistério e amor. Snow é um livro de memórias da cidade onde o autor nasceu e tem vivido a maior parte de sua vida.

Sua carreira nas letras tem sido muito bem-sucedida, tornando-se, na atualidade, no maior romancista turco. Sua fama extrapolou seu país, pois seus livros já foram traduzidos para mais de trinta vernáculos, estando presentes em mais de 40 países.

Entretanto, teve igualmente uma projeção sinistra. Num artigo de sua autoria publicado em jornal suíço, teve a coragem de acusar seu país da prática de genocídio contra os armênios, após a I Grande Guerra Mundial, pelo assassinato de 30 mil curdos. Se por um lado teve que enfrentar a justiça turca em tribunais, por outro, seu nome percorreu o mundo, tamanha foi a repercussão a seu favor que este caso suscitou.

Infelizmente, em fevereiro de 2007, indignado com o assassinato do jornalista e escritor Hrant Dink por um fanático nacionalista, que também o ameaçou com o mesmo desfecho, resolveu deixar a Turquia por tempo indeterminado.

Os livros e o trabalho de Orhan Pamuk têm sido galardoados com diversos prêmios literários de projeção internacional. Além dos já assinalados foi distinguido com o Prêmio Internacional IMPAC, em Dublin (2003); o Friedenspreis (2005) e o Prêmio Médicis para literatura estrangeira (2006).

Contudo, a consagração máxima em sua vida veio aos 54 anos, em 2006, pela outorga do Prêmio Nobel de Literatura desse ano, sendo o primeiro a recebê-lo de sua terra natal. Assim justificou o Comitê do Nobel: “em busca da alma melancólica da sua terra natal encontrou novas imagens espirituais para o combate e para o cruzamento de culturas”.

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  Orhan Pamuk

Lendo a tradução do discurso que proferiu por ocasião da solenidade magna da entrega do Prêmio Nobel, chamou-me atenção não por ter sido longo, erudito ou rebuscado, ao contrário, por ter sido elaborado num linguajar coloquialmente simples, como as grandes verdades da vida, prendendo naturalmente a atenção do ouvinte ou do leitor.

O fulcro de sua fala desenrolou mostrando o seu bom relacionamento com seu pai, a quem sempre o apoiou como escritor, muito antes de sua fama.  Abordou com suspense e reflexões um fato que muito o marcou. Seu pai havia-lhe deixado uma pequena valise, contendo manuscritos e cadernos, pois já vislumbrava o término de seu tempo. Pedia para que bem a guardasse e a abrisse somente após sua derradeira partida.

Relutava em abri-la por temor de descobrir que seu pai pudesse ser um bom escritor, pois desejava que ele fosse apenas seu pai.  Nesse impasse ele afirma que o “segredo do escritor não é inspiração – pois nunca está claro de onde ela vem –, é a sua teimosia, a sua paciência”.

Confessou que seu pai tivera uma grande biblioteca e que em sua mocidade desejara ser um poeta em Istambul. Ademais, reconheceu que ele jamais esquecera de muito lhe falar dos escritores mundiais, dos paxás e dos grandes líderes religiosos. Contudo, questionou: como seria possível ao meu pai ser um escritor se ele não era afeito à solidão, assim como ele, Pamuk, havia experimentado? Ao contrário, seu pai amava as multidões, as companhias, misturando-se com amigos e partilhando piadas. Daí, define que “escrever é transformar o olhar para dentro em palavras, estudar o mundo em que essa pessoa entra quando se retira para dentro de si, e fazê-lo com paciência, obstinação e alegria”. Por conseguinte, refere que “um autor tenta por anos descobrir o segundo ser dentro dele”.

Em outras palavras, Pamuk aproveitava esse fato para reafirmar uma grande verdade atinente a todo(a) aquele(a) que extravasa na escrita suas idéias ou os seus sentimentos. O escritor é um ser solitário, ou melhor, produz sua obra no interior de sua solidão, consigo mesmo, na intimidade casta de seu ser, sem mais ninguém, não deixando de ser aquilo que escreve, que evidencia, que manifesta aos outros, um presente muito original, pois é parte de sua vivência, ou até um pedaço de si mesmo.

Pamuk após muitas conjecturas e ponderações, não se conteve e abriu a valise dias após, fato esse percebido e apreciado caladamente por seu pai em visita realizada na semana seguinte. Não chegou a explicitar o seu teor, mas, veladamente, deu a entender que nela continha escritos pessoais não-compartilhados que seu pai tivera feito ao largo da vida.

Nas entrelinhas dessa cena, percebemos não apenas uma influência genética na verve literária de Pamuk, como também ratifica-nos que todo artista e, particularmente o escritor, pode-se perpetuar no tempo e atravessar virtualmente mundos geográficos díspares – germens da imortalidade e do reconhecimento a que todo ser humano aspira –, tão longo quanto forem preservadas e divulgadas suas obras.

Tenhamos certeza de que a Sobrames – SP constitui-se num cenáculo onde se cultivam tais virtudes.


[1] O Bandeirante. Ano XVI – no 177 (agosto): 1 e 12, 2007; Suplemento Cultural da Revista da Associação Paulista de Medicina – no 183 (agosto/setembro): 2-3, 2007.

Publicado em: às 28 de outubro de 2009 em 14:21  Deixe um comentário  

Você Acredita em Milagres?[*]

 

“Pensa-se hoje na revolução, não como maneira de se solucionarem problemas postos pela atualidade, mas como um milagre que nos dispensa de resolver problemas.”

 Simone Weil (1909-1943), filósofa francesa.

 

A palavra “milagre” vem do latim miraculum e significa algo que surpreende e que possa causar admiração. Entretanto, estamos acostumados a entender o milagre muito além destas sinonímias, especificamente como a teologia ensina, ou seja, a ocorrência de um fato maravilhosamente portentoso, que supere as leis da natureza e não encontre explicações na tangência das ciências, mas somente em Deus.

 

O milagre não acontece por encomenda ou com hora e data marcadas, como observado nas portas de algumas seitas pentecostais. Nem é item de liquidação ou peça de estoque, disponível a qualquer hora e a todos os gostos. O milagre é por definição um fenômeno mui infrequente ou mesmo raro, mas concreto e possível.

 

A Sobrames não é uma entidade religiosa e tampouco confessional. Entretanto, o respeito a todas as crenças e religiões com seus valores e símbolos deve ser uma das características que todos os seus membros devem exercitar.

 

Embora na Sobrames – SP não haja milagres, pode-se testemunhar que nela têm ocorrido grandes prodígios, mês-a-mês, ano-a-ano, dificilmente repetíveis nas devidas proporções, noutras entidades mais tradicionais, de maiores recursos e de maior influência. Vejamos:

 

Embora nossa regional seja rica em valores humanos e literários é mui pobre em recursos econômicos e materiais, advindos de uma pequena parcela de seu quadro social. A secretaria contém em seu arquivo aproximadamente 130 membros cadastrados, contudo, apenas cerca de 1/3 deles tornam-se anualmente adimplentes.

 

Apesar da inflação e do aumento indistinto de todas as tarifas, impostos e taxas existentes no Brasil, que ocorrem ano-a-ano, o valor da anuidade está modicamente fixado em R$ 120,00 (cento e vinte reais) ou aproximadamente US$ 57 (cinquenta e dólares americanos)[†]. Através de um leve exercício de aritmética, pode-se depreender que cada sócio que consegue honrar com sua adimplência anual contribui com apenas R$ 10,00 (dez reais) por mês que, por sua vez, representam R$ 0,35 (trinta e cinco centavos) por dia, ou seja, irrisoriamente o equivalente a ¼ de cafezinho diário!

 

E aí está subentendido algo singelamente maravilhoso. Com essa diminuta importância, o associado tem direto de receber mensalmente O Bandeirante, boletim oficial da entidade, de 8 a 12 páginas, com apresentação bonita, leve e versátil, e de conteúdo rico no que tange a trabalhos e informações. Ademais, o sócio não somente desfruta de uma agradável leitura, como também poderá ter a oportunidade de ver seus trabalhos publicados e divulgados no Brasil e noutros países através da edição eletrônica, condição essa dificilmente acessível em outros periódicos.

 

Todos os associados em dia com a tesouraria que apresentarem mensalmente seus textos nas Pizzas Literárias, tanto em verso quanto em prosa, desde que os disponibilizarem à diretoria, estarão automática e respectivamente concorrendo aos prêmios anuais “Bernardo de Oliveira Martins” e “Flerts Nebó”, cuja avaliação é feita anonimamente por um corpo de jurados composto necessariamente por sobramistas de outros Estados. Ademais, a partir desta gestão, foram criados mais dois prêmios com regulamentos próprios: “Melhor Desempenho na Sobrames – SP”, ou prêmio “Aldo Miletto”, e prêmio “Assiduidade”, com o epônimo de “Rodolpho Civile”, a fim de estimular ainda mais a presença e a participação nas atividades promovidas ou apoiadas pela Sobrames – SP.  

 

Frequentemente nas nossas Pizzas Literária realizam-se graciosamente sorteios de livros e outros brindes aos presentes.

 

É tradicional, a cada três meses, a diretoria lançar o Prêmio Superpizza, que se traduz por um desafio literário, tanto em prosa quanto em verso, a partir de um tema proposto. A avaliação dos trabalhos sempre é feita por um profissional alheio à entidade.

 

Bienalmente os sócios podem desfrutar de preços vantajosamente diferenciados, na tradicional Jornada Médico-Literária Paulista que, neste ano, celebrará sua IX edição de 27 a 30 de setembro, na cidade de Jundiaí, assim como nas Jornadas Médico-Literárias de outras regionais e no Congresso da Sobrames Nacional.

 

Da mesma forma, os associados poderão publicar seus trabalhos nas Coletâneas da Sobrames – SP, editadas bienalmente e a preços bem convidativos com relação ao custoso mercado editorial existente. Digno de muito encômio é salientar que os trabalhos dos sócios publicados em O Bandeirante são inseridos graciosamente na Antologia da Sobrames – SP, com periodicidade também bienal.

 

Esses feitos prodigiosos ocorrem com os sócios adimplentes ao custo atual de apenas R$ 10,00 (dez reais) mensais!!!

 

A título de reflexão devem-se salientar dois pontos:

 

1. Essas conquistas só se tornaram possíveis porque todas as diretorias, indistintamente, que se revezaram no comando da Sobrames – SP, não malversaram os parcos recursos disponíveis. Ao contrário, tal qual alegoricamente à multiplicação bíblica dos pães e dos peixes, deram não somente de si, mas o melhor de si, acumulando, zelando, aprimorando e engrandecendo a entidade.

 

2.  Para manter e incrementar as grandes e honrosas conquistas obtidas até o momento, a entidade necessitará no próximo ano não somente majorar sua anuidade, corrigindo perdas oriundas de inflações anuais, o que estará, infelizmente, aquém de sua necessidade, mas precisa, com premência, aumentar exponencialmente seu quadro social, pois seu custo fixo atual – basicamente correio, editoração, impressão e envelopes –, diluir-se-ía para um contingente bem maior do que o atual.

 

Nós contamos com a imprescindível e inestimável ajuda de Deus, mas temos certeza de que sua manifestação cotidiana não se faz rotineiramente através de milagres. Ou, nas palavras de Herman Hesse (1877-1962), escritor alemão, “para que resulte o possível deve ser tentado o impossível”.

 

Continuamos trabalhando pela causa da Sobrames – SP. O que você pode fazer por ela, que lhe tem feito muito ao longo dos anos?

 

 


[*] O Bandeirante. Ano XV – no 176 (julho): 1 e 12, 2007.

[†] Cotação de um dólar americano em câmbio paralelo para venda, em 3 de julho de 2007, era de 2,080 reais.

Publicado em: às 22 de outubro de 2009 em 17:47  Deixe um comentário  

“Um por Todos e Todos por Um!” [1]

  “Era mais importante ensinar a humildade aos amigos do que desafiar os inimigos com a verdade.”

 Santo Agostinho (354-430, sermão 284)

 

“Um por todos e todos por um!” Quem não conhece esse hino de “guerra” muito usado em competições esportivas, gincanas e disputas envolvendo times?

 

Ele realmente acirra os ânimos da equipe, eleva o brio dos participantes, enfim, motiva-os para a consecução de um objetivo comum: vencer a partida, a competição ou o campeonato. Torna-se extremamente oportuno relembrá-lo por ocasião da realização da 15a edição dos Jogos Pan-Americanos a ser realizada de 13 a 29 de julho, na cidade do Rio de Janeiro.

 

O Brasil volta a receber os jogos Pan-Americanos após 44 anos. Outrora, em 1963, a cidade que os recebeu foi São Paulo e para cá se dirigiram 1.655 atletas de 22 países, em 19 modalidades esportivas. Agora a cidade maravilhosa receberá 5.500 atletas de 42 países, que disputarão 34 modalidades esportivas, com um orçamento estimado de 3,7 bilhões de reais!

 

Um por todos e todos por um! Vale destacar que esse grito de autoestímulo não se aplica a competidores isolados. Ele certamente foi criado para incitar uma equipe como um todo diante de uma emulação qualquer, por mais desafiadora que seja. Nele os participantes colocam suas individualidades e potencialidades para a obtenção de um bem maior e comum. Não é pertinente que um ou outro queira se evidenciar buscando causa própria, ou que os louros da vitória sejam atribuídos a si mesmo. Ao contrário, num trabalho de equipe existe homogeneização de interesses e acréscimos de talentos. Os atletas reservas são tão importantes quanto os titulares e o revezamento se torna salutar não somente para ambos, mas muito mais para a equipe, pois será ela quem receberá o orgulho da vitória, ou amargará a desolação da perda.

 

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[1] O Bandeirante. Ano XV – no 175 (junho): 1, 2007.

 

Conquista pelo Brasil do hexacampeonato da Liga Mundial de Vôlei, na França, em agosto de 2006.

 

A atual diretoria da Sobrames – SP tem almejado realizar não somente um trabalho de equipe com os membros da diretoria executiva, mas também uma interação como os membros efetivos e suplentes do conselho fiscal, assim como com os demais associados. Esses, no time diretivo da Sobrames – SP, poderiam ser considerados reservas, entretanto, gostaríamos e temos observado que alguns deles têm dado também a sua efetiva contribuição como titulares, em trabalho de revezamento e de soma.

 

Não se pretende que seja engrandecido o presidente ou a diretoria isoladamente, mas, sim, única e exclusivamente a entidade. E nesse certame necessitamos de muitos jogadores, pois o páreo é longo, com muitos e difíceis obstáculos para serem vencidos. Não rejeitaremos os atletas que queiram disponibilizar seus talentos em prol da entidade, ainda que não possam participar das reuniões da diretoria. Há muitas tarefas que podem ser feitas nos bastidores e são de grande importância. Afinal, o que seria dos atletas sem uma outra equipe basilar que lhes fornecesse todos os subsídios de logística para viabilização de uniformes, passagens, patrocínio, passaportes, condicionamento físico, restabelecimento da saúde, hotelaria…?!

 

Talvez a seleção brasileira de futebol que competiu na última Copa do Mundo, em 2006, na Alemanha, não sirva de exemplo, pois parece que as vedetes internacionais que lá desfilaram estavam muito mais preocupadas com a situação individual do que com a coletiva. Aliás, a falta de garra e de empenho contribuiu também pelo fracasso apresentado. Ao contrário, o exemplo da seleção brasileira de vôlei, quer masculina quer feminina, tem mostrado ao longo dos anos um trabalho homogêneo, constante e crescente,  no qual não faltam espírito de equipe, vontade de ganhar e amor à camisa.

 

“Para um bom entendedor, meia palavra basta”, diz o velho dito popular. Resta saber de você, caro confrade ou confreira da querida Sobrames – SP, em qual atividade poderia colaborar com espírito de equipe, desprendimento e amor à nossa causa. Lembra-se de que estar presente e torcer já é uma grande colaboração. Mas a Sobrames – SP necessita de algo mais. Deixaremos para que você mesmo(a) sugira e diga-nos em que posição gostaria de ser escalado(a) para que o nosso time seja melhor, mais participativo, mais atuante e mais vitorioso.

 

A Sobrames – SP muito lhe agradecerá!

Publicado em: às 16 de outubro de 2009 em 17:03  Deixe um comentário  

Procura-se uma Sede – Reminiscências Históricas de um Antigo Sonho

 “Um homem percorre o mundo inteiro em busca daquilo que precisa e volta à casa para encontrá-lo.”

 George Augustus Moore (1852-1933), escritor irlandês. 

 

 

Em setembro de 2006, a Sobrames – SP completou seu 18o aniversário, aliás, de mui profícua existência, com um grande dossiê de serviços prestados aos seus sócios e à sua causa.

 

Com sua maioridade, achamos que seja hora deveras oportuna de repensar num antigo sonho acalentado desde nosso primeiro mandato à frente desta seccional (1992-1994), qual seja o de ter um domicílio próprio.

 

Desde a fundação da regional paulista da Sobrames – SP, em 16 de setembro de 1988, sua sede tem funcionado na casa do confrade Flerts Nebó, com exceção do período de 1994-1996. Somos testemunha do carinho e da acolhida constantes que ele e a sua esposa, Madalena J. G.Musetti Nebó, deram em sua residência à entidade, assim como a todos os membros das sucessivas diretorias.

 

Historicamente, salientamos que, ainda em nossa primeira gestão, conseguimos um espaço no edifício da Associação Paulista de Medicina – APM para que nossas reuniões de diretoria pudessem ser lá realizadas. Entretanto, na ocasião, os demais membros da diretoria não viam claramente a necessidade de se ter esse espaço. Alguns temerosos, até contra-argumentaram que a Sobrames – SP poderia sofrer ingerências administrativas dessa respeitável instituição médica. Como somos democrata, declinamos essa chance de ouro, pois poderíamos ter projetado a entidade de forma mais efetiva e, com isso, amealhado muito mais sócios do que da forma isolada como nos encontramos hoje.

 

Sucedeu-nos na presidência da entidade Carlos Luiz Campana (1994-1996). Infelizmente, sua gestão foi turbulenta, gerando, dentro da diretoria, um clima desfavorável de trabalho em equipe, com vários pedidos de demissão durante seu mandato. Apesar do ambiente pouco motivador, ficamos participando ativamente, junto a outros três diretores, até o final da gestão, ajudando-o a cumprir suas metas. Perboyre Lacerda Sampaio, à época desempenhando a função de orador, apesar de não participar ativamente, cedeu as dependências de seu consultório e de sua casa durante essa gestão, para que nelas fossem realizadas as reuniões da diretoria.

 

Campana conseguiu, quase ao término de seu mandato, uma sala na Associação Paulista de Medicina para uma sede. Embora fosse pequena e modesta, transportou para lá todo o acervo de livros que a Sobrames – SP dispunha. Entretanto, o ambiente negativo e conturbado que foi anteriormente criado fez com que a diretoria que o sucedesse, liderada por Paulo Adolpho Leierer (1996-1998), retornasse, de imediato, o acervo de livros à casa de Flerts Nebó que, posteriormente, em sua maior parte, foi doado também por falta de espaço. Assim, perdeu-se pela segunda vez um espaço ou mesmo uma boa proximidade com a tradicional APM e, consequentemente, com significativa parcela da classe médica.

 

Neste breve testemunho de resgate histórico, devemos agradecer aos confrades Flerts Nebó e sua esposa, Madalena Nebó, por terem cedido gentilmente sua moradia até o término da gestão passada, condição necessária para que a entidade se mantivesse atuante.

 

Vários membros da atual diretoria já ofereceram seus consultórios e domicílios, inclusive Flerts Nebó, para as reuniões administrativas. Entretanto, em consenso, os membros da mesma diretoria julgaram que a sociedade deva, necessariamente, procurar seu próprio espaço, tanto independente quanto possível. A Sobrames – SP, que se emancipou em idade, necessita também se emancipar em seu território. Faz-se mister que ela tenha um domicílio próprio, impessoal, gratuito e desvinculado das residências de seus associados, a fim de que seu arquivo e acervo sejam devidamente guardados e organizados, e que os trabalhos e feitos de seus membros sejam protegidos, catalogados, divulgados, enaltecidos e perenizados.

 

A busca por uma sede é um antigo desejo de alguns membros da entidade e uma das metas desta diretoria. Entretanto, sabemos o quão difícil ela é. Contamos pressurosamente com a ajuda e a influência de todos(as) os(as) nossos(as) associados(as) neste desiderato, pois entendemos que este é um bem que extrapola uma pessoa, uma gestão, um mandato, uma diretoria. Só dessa forma, a mais profissional e independente possível, a saga histórica da entidade – com seus fatos, feitos e fotos –, e a memória de seus membros, através da imortalidade de suas obras, poder-se-ão se manter incólumes durante as próximas décadas ou séculos. Quem poderá nos ajudar nesta nobre causa?

 


[*] O Bandeirante. Ano XV – no 174 (maio): 1, 2007.

 

Publicado em: às 16 de outubro de 2009 em 16:57  Deixe um comentário  

Instituídos mais dois Prêmios na Sobrames- SP

 “O esforço dirigido a um objetivo tem sempre por prêmio, com a consecução daquilo a que se aspira, a satisfação que o triunfo proporciona.”

 Thomas Wittlam Atkinson (1799-1861), arquiteto e escritor inglês.

 

 

Premiar é um verbo de dupla via. Premiar tem como sinônimo estimular, desenvolver, valorizar, enaltecer alguém através de sua obra ou feitos e ser premiado é ser reconhecido, merecido, ou distinguido entre seus pares.

 

Cada vez mais clubes de serviço, associações esportivas, empresas, entidades culturais, filantrópicas, científicas e profissionais, inclusive dentro das mais diversas sociedades de especialidades médicas, têm instituído concursos, a fim de fomentar entre seus participantes ou associados um maior empenho em suas tarefas, um maior rendimento na consecução de determinadas metas ou produção de melhores trabalhos. Por vezes, certos prêmios visam identificar virtuoses, reconhecer pessoas abnegadas que atuaram de forma exemplar, ou evidenciar profissionais que representaram de forma notória uma entidade ou um segmento associativo.

 

É próprio do ser humano querer receber afagos por aquilo que faz, sobremodo quando o realiza com distinção. Elogiar quando atitudes, projetos, empreendimentos ou trabalhos são meritórios é, ao mesmo tempo, observar, acompanhar, comparar, reconhecer e estimular pedagogicamente outras ações similares ou melhores do que aquela.

 

A prática de prêmios na Sobrames – SP data de 1997, quando, na gestão de Paulo Adolpho Leierer (1996-1998), foi instituído o concurso para “A Melhor Poesia do Ano”, que recebeu o nome de Prêmio “Bernardo de Oliveira Martins”, grande e alegre poeta de nossa regional que havia falecido há pouco tempo. Em 1999, na gestão de Walter Whitton Harris (1999-2000), foi instituído por analogia o concurso para “A Melhor Prosa do Ano”. Dessa vez, a diretoria que vigia resolveu homenagear alguém muito atuante, primordial, verdadeira viga-mestra para a entidade, e concedeu o nome de Prêmio “Flerts Nebó”, ao confrade que foi co-fundador, primeiro presidente e grande trabalhador pela causa da Sobrames – SP. Em 2003, no início da gestão de Luiz Giovani (2003-2004), foi criado o PrêmioSuperpizza”, que ocorre a cada trimestre com início no mês de janeiro. Trata-se de uma emulação que tenciona desenvolver a criatividade dos autores para que produzam seus textos em prosa ou verso a partir de um tema previamente sugerido.

 

Esses três prêmios são de cunho estritamente técnico, ou seja, os associados são avaliados pelo trabalho literário produzido. Desde quando planejávamos voltar à administração da entidade, tencionávamos criar dois novos prêmios de caráter participativo. A ideia foi amplamente discutida em várias reuniões oficiosas e oficiais da atual diretoria e democraticamente aceita.

 

Assim, foram criados os Prêmios “Melhor Desempenho na Sobrames – SP” e o Prêmio “Assiduidade”. O Prêmio “Assiduidade” será outorgado para aquele(s) membro(s) que participar(em) do maior número de Pizzas Literárias ao longo do ano, tendo duas modalidades: Grande São Paulo e Interior.

 

O Prêmio “Melhor Desempenho na Sobrames – SP” será concedido anualmente a um só membro que participar do maior número de atividades promovidas através ou apoiadas pela Sobrames – SP. No regulamento há uma discriminação de quais são as atividades passíveis de serem premiadas com os respectivos pontos. Foi decidido também que a pontuação será levada em consideração já a partir de janeiro de 2007, e seu gerenciamento ficará a cargo da 2a tesoureira, Ligia Terezinha Pezzuto.

 

A fim de homenagear sócios que representaram ou que ainda representam valores literários e/ou associativos à nossa entidade, cada membro da diretoria executiva e do conselho fiscal (titulares e suplentes) presentes nas reuniões da entidade, indicou secretamente três nomes que formaram uma relação de quatorze elegíveis. Foram obstados de serem indicados os nomes de Bernardo de Oliveira Martins, Flerts Nebó, por já terem seus nomes vinculados a prêmios anuais, e o de Helio Begliomini, por ser o atual presidente da Sobrames – SP e por ter sido o idealizador de tais honrarias.

 

Os quatorze diferentes nomes previamente indicados entraram numa cédula e, através de nova votação secreta dos membros da diretoria e do conselho fiscal (titulares e suplentes), foram apurados os dois mais votados. Assim, o Prêmio “Melhor Desempenho na Sobrames – SP” será chamado de Prêmio “Aldo Miletto” e o Prêmio “Assiduidade” receberá o nome de Prêmio “Rodolpho Civile”.

 

Com isso, verifica-se na regional paulista da Sobrames um reconhecimento a dois dentre tantos outros membros que ao largo de dezoito anos de profícua existência lhes são muito caros, ação lidimamente anti-iconoclasta, através da força da democracia, exercida serenamente dentro da diretoria e do conselho fiscal.

 

A atual diretoria espera que esses dois galardões venham não somente distinguir e reconhecer confrades e confreiras presentes e atuantes, mas também, fomentar maior participação associativa, fortalecendo assim, ainda mais, nossa entidade.

 


[*] O Bandeirante. Ano XV – no 173 (abril): 1, 2007.

 

Publicado em: às 16 de outubro de 2009 em 16:55  Deixe um comentário  

Metas Basilares

 “Por detrás das vitórias de Alexandre, encontramos sempre Aristóteles.”

 Charles André Joseph Marie de Gaulle (1890-1970), general francês.

 

Ainda bem antes de ser estimulado a formar uma chapa para concorrer à administração dos destinos da queridíssima Sobrames paulista – biênio 2007-2008 –, fui convidado por diversas vezes para participar de reuniões da diretoria, então vigente.

 

Apesar de ser um dos fundadores dessa regional e de ter acompanhado, prestigiado e mesmo participado da imensa maioria de seus projetos, atividades e realizações ao longo de seus 18 anos, sempre há o fator surpresa quando se passa da condição de meros espectadores para a de protagonistas. Aqueles podem facultativamente assistir, frequentar, apoiar, criticar, aplaudir, incentivar, desprestigiar e até se omitir, enquanto estes são os responsáveis pelo “fazer acontecer”, ou seja, “tornar concreta” a virtualidade das ideias e dos ideais; executar ações que viabilizem a estrutura administrativa e a logística da entidade, tarefa trabalhosa e complexa, sobremodo numa entidade paradoxalmente farta de seletos valores humano-culturais, mas dotada de parcos recursos econômicos.

 

Assim, após decidir formar uma chapa e concorrer ao pleito em setembro de 2006, achei por bem continuar frequentando as reuniões da diretoria, pois muito tem sido feito na entidade e pela entidade, nas sucessivas diretorias que se têm revezado no poder.

 

A fim de “pegar o bonde andando” (perdoem-me os jovens, pois, provavelmente nunca viram um bonde parado, quanto mais andando!) estimulei a todos os componentes da atual diretoria, que inclui quatro debutantes novéis na administração da entidade, que participassem de reuniões mensais oficiosas. E assim fizemos durante três meses subsequentes à nossa eleição, antes mesmo da posse.

 

Essas reuniões foram sobejamente proveitosas e conseguimos delinear algumas propostas basilares. Ei-las:

 

Manter todas as conquistas das diretorias precedentes. Quando se analisa os diversos projetos que a Sobrames – SP tem rotineiramente feito, que foram consistentes conquistas acumuladas em diversas gestões, verifica-se o muito que ela tem disponibilizado aos seus associados, que podem até não dar o devido valor, sobremodo quando se leva em consideração que são poucas as pessoas que se oferecem para empreendê-los ou colaborar em sua logística. E como preito de reconhecimento aos nossos precedentes, nós os homenageamos com o pensamento em epígrafe de Charles de Gaulle.

 

Buscar um lugar para reuniões da diretoria e espaço para uma sede. Embora houvesse ofertas de residências, assim como consultórios para realizar as reuniões da atual diretoria, seus membros, consensualmente, resolveram optar por um lugar necessariamente não-vinculado ao domicílio de nenhum de seus membros. A entidade recentemente completou 18 anos de existência. Com sua maioridade é hora de tentar alçar voos mais longos e torná-la mais profissional e independente. Entretanto, devemos reconhecer e agradecer aos estimados confrades Flerts Nebó e Madalena J.G.Musetti Nebó por terem gentilmente cedido suas dependências para que a sociedade, desde seu início, realizasse reuniões de diretoria, assim como lançamentos de Coletâneas bienais. Sem essa grandiosa colaboração, talvez não tivéssemos chegado ao presente da forma robusta e organizada como chegamos.  

 

Aumentar o número de sócios: A Sobrames paulista dispõe de um cadastro atual de cerca de 130 pessoas que participam ou que já participaram da entidade, apenas nos últimos anos. Infelizmente, muitos acabam se inscrevendo apenas para receber um certificado. Aproximadamente 1/3 deste modesto contingente costuma estar adimplente com a tesouraria, apesar do valor módico da anuidade. As maiores despesas são fixas e despendidas com a feitura de O Bandeirante, correio, extras das Jornadas e com a Antologia que é bienal, custeada totalmente pela entidade. O Bandeirante e a Antologia são impressos regularmente com 250 a 300 unidades, tiragem essa que proporciona uma melhor relação custo/benefício passível de se obter num orçamento gráfico. Assim, incrementar o número de associados pagantes proporcionará aumento do orçamento e diluição de gastos que não se pode mais reduzir.

 

Entretanto, mais do que se levar em conta o aspecto financeiro, urge que o quadro social aumente, a fim de que a entidade seja oxigenada em ideias, enxertada em participações, mas, sobretudo, enriquecida com interessados (as) em doar-se por ela. Essa tarefa deve, necessariamente, ser empreendida por todos, diretoria e associados.

 

Comunicação. A comunicação é fundamental para aumentar o número de sócios e crescer. Além das ações já realizadas, a diretoria resolveu enviar O Bandeirante, seu órgão oficial informativo-literário, através da mídia eletrônica, assim como estudar a viabilidade de ter uma página própria na Internet e, através dela, oferecer outros serviços gratuitos aos seus associados adimplentes.

 

As tarefas são grandes e desafiadoras. A diretoria está muito animada e empenhada. Resta saber o que os associados, cada qual a seu modo e disponibilidade, podem igualmente fazer pela nossa querida Sobrames – SP.

 

 


[*] O Bandeirante. Ano XV – no 172 (março): 1, 2007.

 

Publicado em: às 16 de outubro de 2009 em 16:49  Deixe um comentário  

Réquiem à Dona Madalena Nebó

 

“Que Jesus o faça santo e lhe conceda todo o bem que desejar para outras almas”!

São Pio de Pietrelcina (1887-1968)

 

Apesar de o vocábulo adeus (a + Deus) expressar serenidade, pois traz em seu íntimo uma mescla de esperança, confiança num destino comum e fé no Criador, não deixa de ser, na prática, um modo de cumprimento inexoravelmente derradeiro, de difícil digestão.

 

Embora soubéssemos que dona Madalena Nebó (eu jamais consegui chamá-la sem o pronome de tratamento “dona” ou “senhora”, como sempre o fiz, informalmente com seu dileto esposo, ambos amicíssimos meus) estivesse lutando há dois anos e meio com uma neoplasia de mama, comovemos-nos com sua partida ocorrida na noite do dia 20 de fevereiro, véspera do período quaresmal. Seu velório, na manhã seguinte, coincidiu com a Quarta-Feira de Cinzas, dia em que na liturgia da Igreja Católica tem-se tornado secular a imposição de cinzas na testa dos fiéis, recordando que somos frágeis, passaremos pela morte – somos pó, como cinzas –, e de que a ele (pó) haveremos de voltar (Gn 3, 19), por mais robusta que seja a saúde que experimentamos e por mais elástico que seja o tempo de existência que poderemos ter. Giuseppe Gioacchino Belli (1791-1863), poeta italiano, sintetizara num de seus versos que “A morte está escondida nos relógios”.

 

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Dona Madalena Nebó na Semana da Academia Brasileira de Médicos Escritores – Abrames, no Rio de Janeiro, em novembro de 2001.

 

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Sempre presente, dona Madalena Nebó participou também da VIII Jornada Médico-Literária Paulista realizada em Serra Negra – SP, em setembro de 2005.

 

 Assim, a celebração da Quaresma nos lembra ano a ano nossa rápida volatilidade. Diante da doença e, particularmente da morte, não há espaço para gabarolice, presunção, vaidade, arrogância e soberba. Ao contrário, ela nos irmana no mesmo denominador comum, nos iguala, nos apequena, nos humilha, nos desarma e nos interroga.

 

Dona Madalena J. G. Musetti Nebó era natural da capital paulista e oriunda de descendentes italianos, assim como tantos outros que viveram e que vivem nesta cidade e no Brasil.

 

Era membro fundador da Sobrames de São Paulo, sócia das primeiras horas, ou melhor, de todas as horas, de todos os momentos, alegres e tristes. Tinha um caráter reto, honesto, simples, cordato. Era culta e querida por todos, em virtude de sua simpatia, delicadeza e amabilidade.

 

Desde os albores da Sobrames – SP, em setembro de 1988, até o final de 2006, sempre cedeu sua confortável moradia, para que nela funcionasse não somente a sede da entidade, como também reuniões da diretoria, ordinárias e extraordinárias, vernissages e lançamento de livros. Estava sempre disposta a privar de seu conforto pessoal e familiar em favor de uma causa nobre. Seu delicioso cafezinho e quitutes sempre estiveram presentes nas nossas reuniões.

 

Dona Madalena Nebó era discreta, à semelhança do jeitinho mineiro. Todavia constituía-se num verdadeiro esteio na entidade e na vida de seu esposo. Diz o ditado popular que por trás de um grande homem sempre existe uma grande mulher. Não temos dúvida nenhuma em afirmar que ela proporcionou, ao grande amor de sua vida, os frutos e as recompensas que ele – Flerts Nebó –, com certeza, obteve e tem obtido em sua trajetória familiar, profissional, social, econômica, cultural e literária.

 

A propósito, deve-se frisar que dona Madalena Nebó se destacou também por possuir virtudes consideradas hoje, mais do que nunca, heroicas: caridade, fidelidade, comprometimento, honradez, perseverança, decoro, dentre tantas outras que se encontram empoeiradas não somente na juventude de hoje, mas também em seus próprios progenitores.

 

Apenas o exemplo de seu matrimônio com Flerts Nebó ocorrido há 55 anos (!), poderia ser citado para testemunhá-las, além de outros nobres predicados que possuía. Desse consórcio teve o privilégio de ter sete filhos e dez netos.

 

Dona Madalena Nebó nos deixou aos 80 anos. Viveu intensamente sua existência ao lado de seu esposo e de seus familiares. Eles se curvaram emocionadamente para dar-lhe seu último ósculo – o do adeus –, antes que o ataúde fosse fechado definitivamente. Por traz desse simples gesto, repetido por sua grande família, estava estampado o muito que ela significou a cada um deles. Verdadeiramente, parte de suas vidas se foi. Para o amigo Flerts Nebó, temos certeza de que foi sua maior parte.

 

O escritor canadense Gaston Miron (1928-) já dissera certa vez que ninguém aqui morre só a sua morte; é um pouco de nós todos que se vai, e naquele que nasce há um pouco de todos nós, que se torna outro”.

 

Com certeza ela está com Deus a quem muito amou e a quem muito serviu ao largo de sua existência. Ele saberá dar aos seus familiares, através da fé, o verdadeiro consolo e as necessárias forças para continuar a contento suas trajetórias, apesar de terem perdido parte de si mesmos.

 

 


[*]O Bandeirante. Ano XV – no 171 (fevereiro): 1, 2007.

 

Publicado em: às 13 de outubro de 2009 em 19:52  Deixe um comentário  

Trocando o Bastão

 

“O consenso é a negociação da liderança.”

 Margaret Hilda Roberts Thatcher, ex-primeira ministra britânica.

Quando exercemos a presidência da Sobrames Nacional (1998-2000), procuramos valorizar o momento solene de posse da nova diretoria. Pensamos num símbolo que o presidente deveria receber que significasse não somente a transferência do poder, do mandato, mas igualmente a responsabilidade do cargo assumido. O símbolo sempre encerra algo de ilustrativo e de pedagógico, além de tornar visível o que por vezes é inaparente.

Assim, a exemplo da tradição que vige, há décadas, na Sociedade Brasileira de Urologia, criamos uma avantajada medalha cujo nome demos de Eurico Branco Ribeiro, nada mais nada menos do que o fundador e patrono da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. Ela seria única e passaria de presidente a presidente, representando suas atribuições estatutárias enquanto tais. Não seria dele, mas ele a carregaria até o final de seu mandato, quando a entregaria solenemente ao seu sucessor.

Essa singela tradição ocorreu subsequentemente por três ocasiões (2000; 2002 e 2004), sendo ignorada, infelizmente, no XXI Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, realizado em Maceió – AL (2006), prática essa que foi substituída pela colocação de uma faixa escapular em diagonal ao tronco.

Lembramos que o confrade Walter Whitton Harris, enquanto presidente da Sobrames de São Paulo (1999-2000), inspirado no exemplo da Sobrames Nacional, ficou igualmente estimulado em criar um símbolo de transmissão do cargo de presidente por ocasião de sua posse. Após refletir sobre o assunto, resolveu criar um bastão. Sim, a entrega de um bastão, artisticamente entalhado, seria o símbolo da posse solene do presidente e de sua diretoria.

Sua alegoria tem inspiração no atletismo, nas corridas de revezamento, em que os atletas correm na pista dando o máximo de si em seu percurso e, à medida que um vai se aproximando do ponto de partida, outro membro de sua equipe já começa a correr paralelamente para pegar o bastão em andamento, não perdendo tempo, objetivando também dar, da mesma forma, o máximo de si, situação essa que se repete por mais duas vezes com outros atletas.

Na Sobrames – SP os atletas são as sucessivas diretorias coordenadas pelo seu presidente, que se revezam nos mandatos, procurando fazer o melhor que podem pela entidade. Na presente gestão, procuramos dar largada antecipada, correndo paralelamente para pegar o bastão no movimento da corrida, pois temos participado, há meses, de diversas reuniões da diretoria que nos antecedeu, como também convocamos, após a nossa eleição, em setembro passado, três reuniões oficiosas com a chapa que ora está empossada.

Torna-se preeminente salientar que o bastão na Sobrames – SP, que representa o comando da entidade, não deve ser carregado ou atribuído apenas ao seu presidente. Por isso, fizemos questão ao tomar posse solene na Pizza Literária de 21 de dezembro de 2006, de não somente segurarmos isoladamente o bastão, mas propiciar a todos os membros da diretoria que o fizessem. Esse pequeno gesto simboliza que, em nossa chapa – “Amor à Sobrames – SP” –, todos os membros da diretoria, indistintamente, terão voz e vez, ou seja, que o poder será descentralizado e extensivo a todos pela força da democracia, e não pela democracia da força, em consonância com uma filosofia de trabalho participativa nas ações e resultados, pois nada mais desonroso do que assumir cargos meramente de forma perfunctória.

 

Com isso almejamos um trabalho de equipe em que cada qual, ao dar do melhor de seus dons, completa as deficiências de outrem, contribuindo sinergicamente para a causa da Sobrames paulista. Com melhores palavras se expressou Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo e escritor francês: o homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter.” Na contramão dessa máxima, encontra-se outra, infelizmente aterradora e verdadeira, de outro escritor francês – Luc de Clapiers Marquis de Vauvenargues (1715-1747): “os homens estão dispostos a ser prestáveis até ao momento em que têm poder.” Que Deus nos livre dessa última e nos dê, além de sabedoria e humildade, o despojamento de sabemos ser meramente efêmeros.

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 Diretoria executiva da Sobrames – SP, biênio 2007-2008. Da esquerda para a direita Ligia Terezinha Pezzuto, Maria do Céu Coutinho Louzã, Josyanne Rita de Arruda Franco, Helio Begliomini, Evanir da Silva Carvalho e Marcos Gimenes  Salun. 


[*] O Bandeirante. Ano XV – no 170 (janeiro): 1, 2007.

Publicado em: às 13 de outubro de 2009 em 19:45  Deixe um comentário  

Recomeçar e Reconhecer: Editorial dos Erres

 

Daí, pois, ao vosso servo um coração sábio,

 capaz de julgar o vosso povo e discernir entre o bem e o mal (…)”.

 Oração de Salomão – I Reis 2:9.

 

Estamos em dezembro de 2006, prestes ao início de uma nova gestão na querida Sobrames – SP. A consciência de que os dirigentes enquanto tais estão escrevendo automaticamente a história de sua agremiação e, que esta transcenda a própria materialidade de seus seres, não se faz presente de modo notório em nossa cultura.

 

Temos clara ciência de que estaremos recomeçando uma nova etapa na história da entidade. Daí ser oportuno renovar sua tábua diretiva com novos talentos; reciclar conceitos, reconhecer valores, reencontrar velhos companheiros, restaurar o equilíbrio, readquirir a confiança, recanalizar energias; reequilibrar o prumo, reconhecer e resgatar nosso passado, restabelecer a harmonia, realinhar nossa trajetória, reabastecer inspirações, reconciliar desejos, ruir a indiferença, reabastecer amizades, reaproximar de outras regionais, revitalizar o ânimo, ressurgir projetos, relevar mágoas, reparar avarias sofridas, renascer a paz, responder aos novos desafios, reacender a esperança, enfim, rumar ao futuro com as baterias recarregadas e as velas plenamente enfunadas. E estas palavras assumem um sabor especialíssimo por estarmos no mês de Natal, quando toda a cristandade comemora o nascimento do Salvador, nosso senhor Jesus Cristo.

 

A Sobrames – SP tem-se destacado ao largo dos anos não somente pelas qualidades humanas e literárias de seus participantes, como também pela enorme quantidade de serviços que presta aos seus membros, desproporcionalmente grande em função do número diminuto de associados que a mantém financeiramente. Para que tudo isso continue, deve, necessariamente, contar com uma diretoria despojada e desmedidamente atuante.

 

Sabemos que a grande maioria dos associados gosta de frequentar nossas reuniões sociais, ler seus trabalhos e ouvir os dos outros companheiros; participar de nossos concursos, antologias, coletâneas, jornadas; receber o informativo O Bandeirante… mas nem todos “podem” ou desejam disponibilizar parcas horas de seu precioso tempo para que a entidade continue funcionando em benefício da coletividade.

 

Neste cenário, a atual diretoria está muito empenhada em abrir suas reuniões a todos aqueles que não somente delas desejam participar, fazendo críticas, trazendo ideias, oxigenando o ambiente, mas, sobretudo, agregando muita vontade de trabalhar. Como é bom escutar sentenças como “o que eu posso fazer para ajudar?”; “eu tenho essa ou aquela ideia para a entidade e, se aprovada, poderia desenvolvê-la”; “vocês gostariam que eu fizesse isso ou aquilo?”; ou, ainda, “neste ou naquele projeto eu gostaria de participar. Posso?”. Tenham certeza de que quaisquer ações em prol da Sobrames – SP, desde que aprovadas pela diretoria, a resposta só poderá ser afirmativa.

 

Durante este ano participamos inicialmente a convite e, posteriormente, por nossa própria iniciativa, de várias reuniões da diretoria que ora conclui seu mandato, e com total espírito de colaboração. Somos testemunha do trabalho e da dedicação de seus membros à causa da entidade.

 

Por isso gostaríamos de reconhecer o labor, o desprendimento, o carinho e o amor que nossos companheiros, ora membros da diretoria que finda seu mandato, devotaram à Sobrames – SP. Essas palavras de elogio assumem maiores proporções, considerando os injustos e desgastantes danos morais sofridos em 2005; os problemas profissionais e familiares que a todos invariavelmente acometem; as agruras de doenças inevitáveis infligidas a entes queridos pela insidiosa e misteriosa saga da vida; além da desolação da morte que surpreendeu a família de um de seus diretores pela irreparável perda de um filho.

 

Reconhecer os valores das pessoas é sempre necessário, justo e salutar. Assim, consignamos nosso preito de gratidão, gritos de alegria e ovação de louvor aos membros da diretoria que deixa a entidade. Somos orgulhosos de ser seus amigos. Somos envaidecidos por ser membro da querida Sobrames de São Paulo, celeiro não somente de talentosos escritores, briosos companheiros, mas também de verdadeiros heróis.

 

Rogamos a Deus por eles, pois nos legaram exemplos da estatura dos grandes homens.

 

Que neste biênio, a exemplo do anterior, o Senhor nos conceda saúde, mas também traços da humildade, da firmeza, da lucidez e da sabedoria de Salomão (1032-975 a.C.) para coordenar nossa diretoria, a fim de que a nossa querida Sobrames – SP cresça com o desprendimento e o engrandecimento de seus membros.

 


[*]O Bandeirante. Ano XV – no 169 (dezembro): 1, 2006. Escrito na condição de presidente eleito da Sobrames – SP para o biênio 2007-2008.

 

Publicado em: às 13 de outubro de 2009 em 19:26  Deixe um comentário  

Por que “Amor à Sobrames – SP”?

 

“Ninguém ama aquilo que não conhece.”

 Santo Agostinho (354 – 430 d.C.)

 

Até há alguns meses, jamais passaria pela minha mente em candidatar-me à presidência da Sobrames paulista. Pensava que, por ser o mais antigo membro do Estado de São Paulo filiado à Sobrames, e o fizera desde maio de 1986, na regional do Rio de Janeiro; por ter sido um dos membros fundadores da Sobrames – SP (1988); duas vezes seu vice-presidente (1988-1990 e 1990-1992); uma vez seu presidente (1992-1994), e por ter participado das cinco primeiras diretorias, além de ter sido secretário-geral (1994-1996) e presidente da Sobrames nacional (1998-2000), já tivesse prestado meu serviço administrativo a essa nobre entidade.

 

Entretanto, algumas ações irresponsáveis e isoladas levadas a cabo no primeiro semestre de 2005 fizeram com que a nossa regional quase soçobrasse. Naqueles momentos de infortúnio não pude deixar de me lembrar da lição de Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.), filósofo romano: “a quem beneficia o delito, esse é o seu autor”. Nos tristes desdobramentos dessa turbulência de proporções calamitosas e de mau agouro, houve, infelizmente, o pedido de demissão da presidente Karin Schmidt Rodrigues Massaro, fato único na história da nossa regional.

 

Nessa situação constrangedoramente adversa, somada a outros delicados problemas de saúde que envolvia e têm envolvido familiares de vários diretores ora vigentes, fui, reiteradamente, instado por velhos amigos a compor uma chapa para a sucessão na entidade, embora, no início, tentasse relevar ou mesmo tergiversar, não considerando seriamente essa proposta.

 

A tarefa era hercúlea, não somente pelo clima de rescaldo vigente, mas também pelos diversos compromissos com a profissão e com outras entidades às quais pertenço, aliás, que também têm me consumido muito tempo.

 

Contudo, o amor à Sobrames – SP falou mais alto. E esse amor nasceu bem antes do alvorecer da regional paulista, pois já pertencia há dois anos e meio da seccional fluminense.

 

Juntamente com Flerts Nebó e Luiz Jorge Ferreira – únicos remanescentes da fundação da Sobrames – SP –, enfrentamos grandes problemas e as mais diversas dificuldades para dar a ela sobrevivência ao largo dos anos. Com certeza, o amor que tenho à Sobrames – SP fará com que a ela acrescente horas em sua administração, que necessariamente serão subtraídas de outros compromissos previamente empenhados.

 

O tempo é longo ou exíguo, ou melhor, é o mesmo para todos. Tenho plena ciência que ter ou não tempo é puramente uma questão de prioridade. Assim, entre tantas circunstâncias a optar e um passado que não merece ser desvalorizado, me convenci de que a Sobrames – SP é uma grande prioridade. Por sinal, uma escolha muito prazerosa.

 

Destarte, achei que nada melhor do que assinalar como lema desta chapa “Amor à Sobrames – SP”. Que esse amor seja transbordante e prolífico não somente dentro da diretoria, como dentre nossos diletos confrades e confreiras. Que todos possamos dar um pouco de nós à nossa querida regional, pois ela tem proporcionado a todos os seus membros muito enlevo, relaxamento, cultura, inspiração, estímulo, descontração, amizades e oportunidades ímpares de se entreter, ouvindo e lendo trabalhos dos associados, além de propiciar que nossos próprios textos sejam lidos, ouvidos e publicados.

 

Que Deus esteja com todos os membros da diretoria, assim como com seus associados, e nos ajude para que juntos possamos realizar frutuosos empreendimentos neste biênio que em breve se iniciará!

 

 


[1] O Bandeirante. Ano XIV – no 168 (novembro): 1, 2006. Escrito na condição de presidente eleito da Sobrames – SP para o biênio 2007-2008.

 

Publicado em: às 13 de outubro de 2009 em 19:20  Deixe um comentário  
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