Tributo a Jundiaí e aos Jundiaienses[*]

 

 Agradecer é reconhecer-se humildemente endividado.

Conheci três homens que tiveram singularmente como denominador comum o amor pela Medicina e um carinho todo especial pela cidade de Jundiaí.

O primeiro deles era um jovem que transpirava ardentemente seus ideais em ser médico. Apaixonou-se por essa causa desde a sua infância, aos seus seis anos de idade, e dela jamais arredou pé. Assim, manteve e alimentou esse sonho durante sua adolescência e juventude e, de modo particular, diuturnamente no terceiro ano do antigo científico, pois o realizava à noite enquanto frequentava, pela manhã, o cursinho preparatório para Medicina. Contava ele com dezessete anos. Disse-me que fora o pior ano de sua vida, haja vista o cansaço físico e psicológico causados pelo estresse e pela acirrada competição.

Uma alegria inaudita experimentou após saber que fora aprovado no difícil vestibular, em virtude da Faculdade de Medicina de Jundiaí oferecer apenas sessenta vagas anuais, praxe que continua até hoje em dia.

Contou-me que a cidade, nessa época, apesar de já possuir destaque no Estado de São Paulo por suas indústrias e agronegócios, tinha o sotaque caipira do interior e ares provincianos, não obstante sua localização a menos de 50 quilômetros da capital.

Com dezoito anos incompletos e inexperiente, pois jamais morara fora de sua casa, aquele jovem sonhador, com o apoio irrestrito de seus pais, transferiu-se, em 1973, para Jundiaí. Disse-me com emocionadas saudades que seu trote de calouro, mais do que os louros da vitória, fora um verdadeiro batismo na milenar ciência de Hipócrates. Participou das brincadeiras e pediu esmolas com os cabelos retalhados e com o corpo encharcado de tintas, farinhas e ovos quebrados, sempre com grande alegria e envolvimento. Era o início de uma longa caminhada que teria pela frente, mas sabia que embora espinhosa, árdua e sinuosa, Deus dar-lhe-ía as condições necessárias para chegar a bom termo.  Enquanto não conhecia melhor seus companheiros de turma para residir numa moradia comum, passou por uma simplória pensão, onde, à noite, até ratos andavam por debaixo de sua cama. Sem lugar definitivo, chegou a ser albergado provisoriamente numa república de alunos mais velhos, conhecidos por utilizarem drogas ilícitas. Por vezes morou na “zona”, mas, com a graça divina, jamais fora da “zona”.

Dissera-me também que durante aproximadamente quatro anos vinha para cá sistematicamente no trem das 7, todas as 2as feiras, e daqui partia no final da tarde das 6as feiras ou sábados, igualmente pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Aliás, o trem fora outra paixão em sua vida. Confessou-me que, quando criança, antes de querer ser médico, queria ser maquinista de trem, pois no bairro onde morava, sua avó paterna levava-o frequentemente para passear num antigo trenzinho puxado por uma poluidora maria-fumaça.

Disse-me com incontida alegria que viveu e saboreou intensamente a vida acadêmica: vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, durante seis anos, não somente nos estudos, cursos e estágios extracurriculares, mas também nos esportes e festas. Teve o privilégio de ser monitor de três diferentes disciplinas: fisiologia, clínica médica e urologia. No terceiro ano envolveu-se também com o departamento científico do diretório acadêmico professor Alphonso Bovero, tendo sido co-fundador da revista científica dessa faculdade, denominada “Perspectivas Médicas”, ainda hoje em circulação. Nesse empreendimento exerceu, respectivamente a função de vice-diretor (editor-associado, 1976) e de diretor (editor, 1977).

Conheceu afamados lentes que, além de lhe darem conhecimentos técnico-científicos, sedimentaram-lhe um humanismo coerente, baseado no irrestrito respeito ao próximo, particularmente ao enfermo, e à vida em toda a sua plenitude: do início com a concepção ao seu ocaso com a morte natural. Entre seus inesquecíveis e inúmeros professores citou-me: Olavo Marcondes Calazans, Antônio Sesso, Douglas Zago, Metry Bacila, Nain Sawaia, Miguel Nassif, Pedro Lara, José Carlos da Rosa, Dino Baptista Germano Pattoli, Sérgio Olavo Pinto da Costa, Carlos da Silva Lacaz, Adhemar Purchio, Fernando Varela de Carvalho, Kurt Kloetzel, Antonio Monteiro Cardoso de Almeida, Sergio Toledo de Moura Campos, Aníbal Cipriano da Silveira Santos, João Tranchesi, Antonio Mendes Pereira, Marco Antonio Paes de Freitas, Ricardo Veronesi, Wilson Cossermelli, João Targinio de Araújo, José Eduardo da Costa Martins, Paulo David Branco, Eugênio Américo Bueno Ferreira, Murilo R. Viotti, Roberto Anania de Paula, Lauro Takumi Kawabe, Oswaldo Tempestini, Dagoberto Telles Coimbra, Roberto de Vilhena Moraes, Jalma Jurado, Euclides Marques, Álvaro da Cunha Bastos, Clemente Isnard Ribeiro de Almeida, Aloysio de Mattos Pimenta, Lenir Mathias, Newton Kara José, Sami Arap e Cláudio José Pagotto, dentre tantos outros que a memória inculposamente peca por não conseguir recordar, mas que igualmente foram-lhe grande esteio de uma formação equilibrada em Medicina, como ciência, arte e humanismo.

O envolvimento em sua vocação propiciou-lhe galgar importantes estágios extracurriculares dentro e fora dos domínios de sua faculdade, como em São Paulo, durante um ano, na Maternidade Leonor Mendes de Almeida ou, simplesmente, Casa Maternal.

Disse-me emocionado que, infelizmente, os seis anos foram rapidamente dragados pela voracidade do tempo. Formou-se em 1978, na 5a turma dessa instituição de ensino. Contudo, os ensinamentos obtidos na Faculdade de Medicina de Jundiaí deram-lhe conhecimentos para que realizasse Residência Médica em urologia, no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo, importante hospital de ensino, referência nacional nessa especialidade, e, posteriormente, pós-graduação em nível de mestrado na então Escola Paulista de Medicina, há muito denominada Universidade Federal de São Paulo.

Aquele jovem aqui amadureceu e aqui realizou seu grande sonho de ser médico. Asseverou-me que foi e será sempre muito grato a Jundiaí.

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Conheci, em 1991, um outro homem. Era médico formado há 13 anos e trabalhava na cidade de São Paulo. Sua esposa era engenheira e tinha três filhos: dois meninos, respectivamente de 11 e 9 anos e, uma menina de 3 anos. Conhecia Jundiaí, mas há tempos não se deslocava para cá. Tornou a fazê-lo em virtude de estar colaborando na organização da I Jornada Médico-Literária Paulista da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Regional de São Paulo (Sobrames – SP). Teve contatos com a administração da Faculdade de Medicina de Jundiaí; com autoridades da educação, da política e da saúde e, particularmente, com o então secretário da Saúde, Pedro Cérare Cavini Ferreira, que muito apoio deu àquele evento.

Disse-me que com o apoio recebido, a Jornada fora coroada plenamente de êxitos; que havia feito novas amizades e que tivera passado momentos agradabilíssimos nesta cidade. A sua admiração pelos jundiaienses redobrou, tamanha fora a receptividade e a acolhida obtidas!

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Conheci ainda recentemente outro médico. Mais experiente e bem mais velho. Disse-me que era formado há quase 29 anos e que outrora sua vida tinha sido marcada indelevelmente nesta cidade. Contou-me também que neste ano, tinha-se deslocado quatro vezes para cá, a fim de organizar um evento. Em função disso perambulou pelas ruas e bairros; percorreu seus arrabaldes; adentrou vários hotéis; esteve em diversos restaurantes; visitou instituições culturais e museus. Confessou-me que ficou perplexo com o tamanho e o desenvolvimento da cidade, que outrora lhe era familiar como a palma de sua mão e, agora, tinha que ser ciceroneado por uma médica, amiga sua, que aqui, há anos, radicara-se.

Viu a frugalidade da vida rural; ouviu e recordou o inesquecível sotaque campestre; identificou-se com os costumes dos imigrantes italianos, os oriundi assim como seus avós; encantou-se com o contraste da moderna arquitetura urbana dotada de belas construções, inúmeros edifícios de vanguarda espelhados com pele de vidro; atravessou pontes e viadutos; admirou-se com o parque onde hoje se localiza a prefeitura; passou por praças, bosques e percorreu largas e longas avenidas que se entrecruzam, dando ares de uma verdadeira metrópole.

Ao lado de toda essa estrutura material, também foi tocado pela mesma hospitalidade e acolhida do povo jundiaiense que outrora havia experimentado. Confessou-me do quão lhe era grato à cidade, às autoridades, aos intelectuais e aos comerciantes de Jundiaí.

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Sou sobejamente grato a Deus por ter permitido que esses três homens, ora narrados, fizessem parte de uma única vida – a minha! – e, por ter vivido nesta encantadora cidade e aqui ter recebido uma primorosa educação universitária, além de consentir que pudesse formar amizades que persistissem até hoje.

Por ocasião desta IX Jornada Médico-Literária Paulista não posso furtar-me de agradecer também a sua comissão organizadora na pessoa da dra. Josyanne Rita de Arruda Franco, catalisadora das forças políticas, educacionais, empresariais, literárias, artísticas e intelectuais de Jundiaí, e do jornalista Marcos Gimenes Salun pelo desprendimento, carinho, atenção, denodo, apoio logístico e senso responsabilidade que ambos tiveram para que tudo fosse feito da melhor forma possível dentro de nosso exíguo orçamento.

Sejam todos muito bem-vindos a este fraterno congraçamento literário-cultural mesclado, nesta edição, com as iguarias do delicioso roteiro gastronômico jundiaiense.

Por tudo e por todos, meu irrestrito muito obrigado a Jundiaí!


[*] Nota: discurso pronunciado no dia 27 de setembro de 2007, no auditório Elis Regina da Biblioteca Municipal de Jundiaí, Professor Nelson Foot, por ocasião da solenidade de abertura da IX Jornada Médico-Literária Paulista. O Bandeirante. Ano XVI – no 179 (outubro): 5-6, 2007.

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