Idéias de Luc Ferry, Ateísmo e Natal [*]

 

 

É muito imbecil, ou louco,

quem não vê, na sua estrada,

que com Deus é muito o pouco,

e sem Deus, o muito é nada…

 Octacílio Cruz Peixoto, trovador.

Luc Ferry é um filósofo e cientista social parisiense. Nasceu em 1951, contando, hoje, com 56 anos. Tem se tornado um escritor voltado para o humanismo secular. Em 2006, ganhou o prêmio Aujourd’Hui com seu livro Aprender a Viver, onde apresenta a história da filosofia desde a antiga Grécia à atualidade.

É conhecido como um dos mais radicais defensores do movimento de laicização no Ocidente, particularmente contra o avanço dos fundamentalistas. Quando foi ministro da Educação, na França, entre 2002 e 2004, muito repercutiu o fato àquela época, de proibir o uso de véus das mulheres muçulmanas em escolas públicas.

Em seu livro Nouvel Ordre Écologique, além de apresentar crítica aos ecologistas radicais, expressa preocupação no mundo globalizado com o futuro da democracia e a deterioração do poder dos políticos.

Com relação ao medo que os jovens contemporâneos enfrentam em relação àqueles dos anos 60, diz: “o que é novo não é a proliferação do medo, mas o fato que o medo seja desculpabilizado. Em minha infância o medo era um sentimento negativo, um pouco vergonhoso e que, para crescer, era preciso superá-lo. Hoje se tornou sentimento positivo, como se fosse o primeiro passo para a sabedoria”.

Ainda no seu livro Aprender a Viver, Luc Ferry defende que a consciência da responsabilidade do indivíduo sobre a coletividade deve gerar um novo humanismo. Entretanto, embora não se considere nietzschiano, ensina ao homem a ocupar o lugar de Deus, ou a persistir na ideia de divinizar o humano. Assim, defende que a idéia da transcendência desceu do céu para a Terra, na humanidade, especificamente pela sacralização do ser humano.

Contrariamente, por incrível que possa parecer, este livro, segundo críticos, poderia ser resumido com um princípio cristão: “não faça aos outros, o que não gostaria que fizessem com você”. Entretanto, Ferry acredita que, quanto mais ateu for o filósofo, mais à altura do título de pensador ele possui.

No seu livro O Homem Deus, Luc Ferry expressa novamente sua visão laicizante acerca do mundo. Pressupondo a decadência do cristianismo, renova sua crença na divinização do homem. Para ele o indivíduo moderno deve enfrentar sozinho as experiências cruciais da existência, tais como o luto, o mal e o amor.

Luc Ferry

O ateísmo tem-se propagado não somente como uma simples opção, ou mesmo como convicção, mas sim, com a intenção de destruir a fé em Deus. Seus protagonistas jactam-se com ar de superioridade com relação aos demais mortais, pressupondo que atingiram um plano civilizacional superior, pois prescindem de Deus. Entretanto, eles não levam em consideração que crer em Deus como a Causa Primeira de um mega e inúmeros nanouniversos, perfeitamente harmônicos e bem ordenados, não é apanágio apenas dos incultos, dos iletrados, dos simplórios e dos matutos, mas também de cientistas, pensadores, pós-graduados lato sensu, artistas e de intelectuais dos mais variegados matizes.

Paradoxalmente, a segurança dos que acreditam em Deus é a mesma daqueles que O negam. Contudo, as considerações dos ateus desarticulam-se e volatilizam-se mais facilmente diante da argumentação filosófica, científica, lógica e racional.

Algo jocoso, mas ao mesmo tempo real, aconteceu em Paris, na mesma cidade de Luc Ferry, com um ilustre concidadão seu, há cerca de 200 anos. Jean le Rond d’Alembert (1717-1783), filósofo, matemático e físico que participou da edição da Encyclopédie, primeira enciclopédia publicada na Europa, frequentemente usava sua inteligência para menosprezar a religião. Certa feita estava num palácio e começou a vangloriar-se de ser ateu. Dizia: neste palácio somente eu não creio, nem adoro a Deus. Entretanto, uma mulher de fé que ali se encontrara lhe respondeu: estais muito enganado, senhor d’Alembert. O senhor não é o único. Existem outros neste palácio que não acreditam em Deus. Admirado, ele perguntou: e posso saber quem são meus companheiros, minha senhora? Claro! – retrucou ela –, complementando: são os cães, os cavalos e os burros que estão no pátio…

Com todo o respeito a pensamentos contrários, diríamos que apenas um irracional pode negar a Deus. Explicitando: O irracional não tem capacidade de articular a razão – consequentemente, Deus é a realidade mais evidentemente inegável.

Os crédulos não o são por medo do desconhecido, pela ignorância, pela falta de explicação abstrata ou pelas superstições, mas sim, concebem a noção de um Criador também pela intuição e pela dedução racional. Diríamos que no homem existe o instinto da religiosidade como outro qualquer. A sua sede pelo transcendente lhe é inata. O genial filósofo Aurélio Agostinho de Hipona (354-430), que passou boa parte de sua vida menosprezando o transcendente, sintetizou este anseio de forma simples, densa e lapidar: “Tu nos fizeste para ti, Senhor, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Confissões I,1).

Ainda é do genial Agostinho esta reflexão contida em seu Sermão 126,3: “Eleva o olhar racional, usa os olhos como homem, contempla o céu e a terra, os ornamentos do céu, a fecundidade da terra, o voar das aves, o nadar dos peixes, a força das sementes, a sucessão das estações. Considera bem os seres criados e busca o seu Criador. Presta atenção no que vês e procura quem não vês. Crê naquele que não vês, por causa das realidades que vês. E não julgues que é pelo meu sermão que és assim exortado. Ouve o apóstolo que diz: – ‘As  imperfeições invisíveis de Deus tornaram-se visíveis, desde a criação do mundo, pelos seres por ele criados’ (Rm, 1,20)”.

O irreverente François-Marie Arouet, filósofo iluminista francês, mais conhecido pelo pseudônimo de Voltaire (1694-1778), no tocante ao criador, dissera: “todo relógio tem um relojoeiro!”. Acreditava explicitamente na existência de Deus. Para Voltaire, “Deus é a suprema inteligência do mundo, obreiro infinitamente capaz e infinitamente imparcial”.

Para o famoso escritor e poeta francês Victor Hugo (18021885), “Deus é o invisível evidente”. Jacques Anatole François Thibault, mais conhecido como Anatole France (1844-1924), também escritor,recebido na Academia Francesa em 24 de dezembro de 1896, e laureado com o prêmio Nobel de Literatura, em 1921, consignou primorosamente que “o acaso é, talvez, o pseudônimo de Deus, quando Ele não quer assinar o seu nome”.

Assim poder-se-ia elencar uma série de outros homens notáveis – religiosos, filósofos, teólogos, escritores, artistas, músicos, cientistas, intelectuais… –, que acreditavam em Deus ou que a Ele chegaram pelas evidências de seus misteres: Francesco Bernardone ou Francisco de Assis (1181-1226), eleito no final do século XX, pela revista Times, como o personagem que mais marcou o milênio passado; Tomás de Aquino (12251274), Nicolau Copérnico (1473-1543), Galileu Galilei (1564-1642), Johannes Kepler (1571-1630), René Descartes (1596-1650), Blaise Pascal (1623-1662), Isaac Newton (16431727), Gottfried Wilhelm von Leibniz (16461716), Ludwig van Beethoven (17701827), André Marie Ampère (1775-1836), Louis Pasteur (1822-1895), pai da microbiologia; Antoine Henri Becquerel (1852-1908), prêmio Nobel de Física, em 1903, pela descoberta da radioatividade; Max Planck (1858-1947), prêmio Nobel de Física, em 1918, pela descoberta do “quantum” de energia; Andrews Millikan (1868-1953), prêmio Nobel de Física, em 1923, pela descoberta da carga elétrica elementar; Maratma Gandhi (1869-1948), Alex Carrel (1873-1944), prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, em 1912, pelas suas pesquisas em sutura vascular; Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz, em 1952; Albert Einstein (1879-1955), prêmio Nobel de Física, em 1921, pela descoberta do efeito fotoelétrico; Erwin Schrödinger (1887-1961), prêmio Nobel de Física, em 1933, pelo descobrimento de novas fórmulas da energia atômica; Agnes Gonxha Bojaxhiu, Teresa de Calcutá (1910-1997), prêmio Nobel da Paz, em 1979; Jérôme Lejeune (1926-1994), pai da genética moderna;  Martin Luther King (1929-1968), prêmio Nobel da Paz, em 1964; Desmond Mpilo Tutu (1931-), prêmio Nobel da Paz, em 1984, dentre outros milhares ou milhões, que mais prestaram e prestam serviço ao pensamento, à ciência, às artes, enfim, ao homem e à civilização do que o mal que fizeram ou que fazem à humanidade expoentes do pragmatismo ateu como Josef Stalin (1878-1953), Adolf Hitler (1889-1945), Mao Tsé-Tung (1893-1976), Saloth Sar, mais conhecido por Pol Pot (1925-1998), Fidel Alejandro Castro Ruz (1926-), além de outros carrascos que assassinaram mais de cem milhões de pessoas.

Os homens não são iguais entre si e, no que tange ao ateísmo implícito e explícito no pensamento de Luc Ferry, assim como de outros militantes, ele é rechaçado por 97,5% da população mundial que se declaram crentes. Felizmente não é necessário ter muitos neurônios para se chegar a essa constatação e nem ostentar arrogância de superioridade intelectual! Contrariamente ao que assevera Luc Ferry diríamos que, quanto mais humilde for o filósofo, mais à altura do título de pensador ele possui. Aliás, Sócrates (470 a.C.399 a.C.), filósofo ateniense e um dos mais importantes pensadores do Ocidente, já entendera que quanto mais sei, mais sei que nada sei”.

Ao ensejo dessas ponderações, vale a pena aduzir o nome de Francis S. Collins, diretor do Projeto Genoma Humano, que assume ser cristão, exibindo uma trajetória que vai do ateísmo à crença. Collins lançou, recentemente nos Estados Unidos da América, uma interessante obra, cuja tradução para o português tem como título A Linguagem de Deus – Um Cientista Apresenta Evidências de que Ele Existe, mostrando, assim, como inúmeros outros, que não há contradição entre ciência e fé.

É de se esperar, pois, que neste mês de dezembro, Luc Ferry e seus simpatizantes ateus aceitem de 1/5 da humanidade que é cristã, um feliz Natal, entendido como o Deus que se tornou homem para resgatá-lo de seu próprio mal e dar um sentido redentor às suas angústias, achaques, imperfeições, pecados e sofrimentos.


[*] O Bandeirante. Ano XVI – no 181 (dezembro): 1-2, 2007 e Boletim da Urologia Ano XXIII – no 1 (janeiro-fevereiro): 54-57, 2008.

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